Há dias, voltando de visitar um
cliente, ao passar junto a uma velha
montra, algo me chamou a atenção.
Ainda tinha uns minutos, pelo que
resolvi entrar e visitar aquela loja
que tinha sido objecto de uma
reportagem no jornal local de maior
circulação, há alguns meses.
Mal transpus o limiar da porta e
comecei a mirar o motivo da minha
curiosidade, e logo um velho homem,
alto e escanzelado, veio ao meu
encontro, com um sorriso desdentado
no rosto.
Uns óculos de lentes grossas
cobriam-lhe os olhos cansados de
noventa e tal invernos vividos com
entusiasmo e paixão, que ainda
brilhavam ao falar do seu negócio.
Negócio? Difícilmente esta palavra
se poderá aplicar aquele espaço que
mais parece um museu, ou local de
culto.
Educadamente dirigiu-me a palavra
perguntando em que podia ser útil e
ao ver para onde o meu olhar se
voltava, um cintilar de entusiasmo,
fez despedir faíscas brilhantes das
lentes dos seus auxiliares visuais.
Tirou então a carteira do bolso e
abriu-a retirando um velho recorte
de jornal que desdobrou
cuidadosamente, mostrando-me um
artigo sobre o nosso veterano
jornalista, falecido há alguns anos,
Fernando Pessa.
Na verdade eles até são parecidos,
pensei eu, relembrando o velho homem
das reportagens interessantes na TV,
velha glória que no tempo da segunda
guerra mundial, exilado em Londres,
recusava ir para o abrigo, para
fazer a reportagem em directo do
estrondo das bombas nazis.
Pensando ir ouvir um elogio ao
jornalista falecido em plena
actividade, com mais de 90 anos,
preparei-me, com uma postura
atenta.
Mas, o que ele me mostrou naquele
pedaço de papel amarelecido, foi a
máquina de escrever que sobre a
secretária, ostentava com orgulho a
sua marca "Royal 10".
E então começou a falar de como
tinha aberto aquela sua loja, no ano
de 1945, pelo que completava este
ano, o seu cinquentenário e como
reparava com paixão todas aquelas
máquinas das quais conhecia em
pormenor, todas as peças e seu
funcionamento.
Contou como recebia encomendas de
todo o país e estrangeiro, de
pessoas coleccionadoras daquelas
maravilhas que sabiam exactamente o
que procuravam e ele sabia onde
encontrar, para satisfação do seu
cliente e eram tantas as histórias
que o meu fascínio aumentava a
escutá-lo atenta e deslumbrada.
Sobre as bancadas, expostas velhas
máquinas, não só de escrever, como
também de calcular, daquelas de
manivelas, e também registadoras,
que faziam lembrar as dos filmes
americanos, passados nos saloons
do oeste, no tempo dos cow-boys.
E mesmo ali, o objecto da minha
maior admiração, uma máquina de
fabrico americano, datada do início
do século, marca Smith Premier,
ostentava a sua raridade, com um
magnífico teclado duplo que eu nunca
tinha visto, pois que tinha um com
letras maiúsculas e outro com letras
minúsculas, cor branca para um, cor
negra para outro, como um piano ou
orgão em miniatura, cuja melodia,
seria o bater cadenciado dos seus
tipos no papel, por alguma
secretária senhoril, em algum
escritório antigo e romântico, onde
o patrão seria o senhor incontestado
e talvez amado.
Ou talvez tivesse pertencido a algum
génio das letras, ou da ciência, que
imaginei escrevendo as suas obras em
anos idos, de outros tempos, em que
a vida era mais suave, e havia tempo
para tudo, para a amizade, o lazer,
para dedicar tempo aos parceiros,
para ir ao cinema, e ao teatro, para
saborear os prazeres simples e
divinos da atenção dividida.
Agora nesta era informática e
internáutica, ficamos atrás dos
nossos computadores e escrevemos num
teclado quase silencioso, falamos
com pessoas invisíveis que nos dão
atenção e carinho, e uma conspiração
de silêncio consentido talvez até
procurado, nos cerca nos nossos
lares, e locais de trabalho.
Desejei ser dona daquela raridade,
não para mim, mas para ofertar a
alguém que escreve num computador,
cercado de muros de silêncio e
incompreensão, tentando com as suas
obras cultivar talentos, e ser pago
em afecto e carinho.
Mas os muros de presenças invisíveis
criados por esta nossa era, em que
não podemos falar olhando nos olhos
das pessoas a quem dedicamos a nossa
atenção e amizade, em que distâncias
imensas, não apenas físicas, mas de
convenções e compromissos, nos
impedem de tocar a pele, e escutar o
timbre da voz a não ser através de
máquinas, que tantas vezes distorcem
as intenções e escondem os afectos e
desejos sinceros e reais, impedem
essa colheita tão apetecida e
merecida.
Por isso um presente assim, uma
raridade, símbolo de outros tempos,
instrumento de escritores e
artistas, seria um presente
perfeito, pensava eu ao sair daquela
loja-museu, e encaminhando-me para o
meu carro, pensativa e sonhadora.
Em breve, novas crónicas do
quotidiano de uma cidade de
província, velha de 2000 anos, berço
de glórias do passado, e decadências
no presente.
***
MERCEARIA DE ANTIGUIDADES
Arlete Piedade
Nas
minhas deslocações pela cidade,
tratando dos meus assuntos,
deparei-me há dias, com uma
curiosa loja de mercearias.
Ia
andando pelo passeio de uma rua da
cidade antiga, quando uma velha e
estreita porta me despertou a
atenção, já que há entrada,
ostentava pendurados em cachos,
velhos objectos, que quando me
aproximei verifiquei serem
badalos, e outras ferragens usadas
pelas casas agrícolas nos arreios
das montadas.
Curiosa como sou, espreitei para o
interior, pensando ser uma espécie
de loja de antiguidades, mas qual
não foi o meu espanto, ao ver
caixas de madeira com frutas, ao
lado de pacotes de detergentes,
garrafas de azeite e vinho....
e... espanto dos espantos...
vários objectos antigos, ou talvez
melhor dizer velhos, coabitando
por ali.
Fui
entrando cuidadosamente para ver
de perto, porque o espaço era
exíguo, deixando apenas um
estreito e escuro corredor e não
queria tocar acidentalmente
qualquer um dos artigos expostos.
Então fui-me me apercebendo da
aparente confusão que por ali
reinava, onde ao lado das
mercearias (poucas), estavam
expostos, pratos antigos e outras
peças de louça, relógios de
parede, figuras religiosas, e
outras coisas antigas que de nada
já serviam aos seus donos.
Ao
aperceber uma sombra, olhei e na
porta estreita em contraste com a
luminosidade da rua, enquadrou-se
a figura pequena e avantajada do
dono do local, que me questionou
sobre os motivos do meu interesse.
Seguiu-se um diálogo interessante,
com o velho homem me explicando os
motivos de ter transformado a sua
loja, de mercearia em loja de
antiguidades (ou quase).
Pois que morando numa pequena vila
rodeada de aldeias e sendo muito
conhecido, ao deslocar-se fazendo
o seu comércio de frutas e
mercearias, as pessoas idosas lhe
pediam se vendia no seu
estabelecimento da cidade grande,
aquelas peças, heranças de dias
melhores, a fim de juntarem alguns
euros ao seu mísero pecúlio e
pensões de reforma mínimas, e
assim fazer face a despesas com a
saúde e bem estar.
Assim, e perante o interesse
manifestado pelos seus clientes,
foi substituindo gradualmente o
objecto do seu comércio, de
mercearias para antiguidades,
coexistindo ainda no local, os
produtos agrícolas como frutas,
vinho e azeite, a par de louças
antigas e outros artigos de idade
considerável.
Depois de agradecer e tirar
algumas fotos, voltei para a luz
da rua, prometendo divulgar e
voltar em breve, quem sabe para
escolher algum presente.
Mas
a crise... os euros... sempre a
minguar na carteira... ficou a
recordação de um lugar diferente e
da engenhosidade do homem para
encontrar saídas para as
dificuldades em tempo de vacas
magras.
Em
breve mais crónicas de uma cidade
antiga de milénios, berço de
glórias do passado e decadências
no presente.
Arlete Piedade - 07/01/2005
***
ENTRUDO NA ALDEIA
Arlete
Piedade
Era
naqueles anos idos de sessenta, em
que o mundo começou a mudar, em
que a lua deixou de ser apenas um
sonho para os corações
apaixonados, em que os jovens
ousaram fazer ouvir a sua voz e a
sua revolta, em que os Beatles
mudaram toda uma geração...
Mas
na minha aldeia, em que os dedos
de uma mão chegavam para contar os
aparelhos de televisão, e os das
duas chegavam para os aparelhos de
rádio, as notícias chegavam
devagar, mas iam chegando.
Tudo rodava com calma, ao ritmo
das estações do ano, das festas
tradicionais das aldeias vizinhas,
e das festividades sazonais, uma
delas que as crianças esperavam
mais ansiosamente, era o Carnaval,
que nós chamávamos de Entrudo.
Não
sabíamos de desfiles de escolas de
samba, nunca tínhamos ouvido falar
do Carnaval brasileiro, nem
tínhamos assistido a corsos
carnavalescos com actores
brasileiros como reis do Carnaval,
pois que nem sequer telenovelas
brasileiras sabíamos que existiam
na época, mas tínhamos as nossas
próprias maneiras de brincar ao
Entrudo.
Os
jovens reuniam-se em casa de um
deles, e então combinávamos
cuidadosamente qual a "máscara" de
cada um, e digo entre parêntesis,
porque não tínhamos máscaras, o
que nos servia para fantasiar, era
a roupa dos pais, das avós, o
vestido de noiva da
vizinha...então decidido qual a
fantasia de cada um, começava o
"assalto" á arca da roupa dos
familiares, em busca dos adereços
adequados, e cada qual se revestia
da personagem escolhida.
Uma
era a noiva, outra a velhinha, os
meninos, vestiam-se de pedintes,
velhos coxos, enfim cada um se
fantasiava nas suas personagens
favoritas e conforme a roupa e a
ocasião assim o ditassem.
Apenas uma coisa era essencial:
formado o cortejo, pelas ruas da
aldeia, visitando casa por casa, a
identificação de cada um, era um
dos segredos mais bem guardados, e
os comentários dos vizinhos
provocavam as mais hilariantes
gargalhadas, ao confundirem uns
com os outros, apenas com base em
pressupostos como altura, ou algum
outro detalhe esquecido.
Então como recompensa pela
diversão proporcionada, todos nos
ofereciam algum presente,
geralmente comestível, ou
dinheiro, podiam ser ovos,
chouriço, frutas, ou outros.
E o
desfile findava então em casa de
um de nós, fazendo um lanche
geral, com os presentes ganhos, no
qual todos ríamos e contávamos
vezes sem conta, as peripécias da
tarde.
Eram assim as nossas brincadeiras
carnavalescas e desde ontem nunca
mais me diverti assim
inocentemente no Carnaval, pois
que ver os outros rir e brincar,
ficando apenas a olhar numa
bancada ou atrás de um aparelho de
televisão, não faz parte dos meus
ideais de diversão.
Arlete Piedade - 21/02/2006
***
O
DESCOBRIDOR INJUSTIÇADO
Arlete
Piedade
Sempre que passo junto àquela casa
reconstruída e onde funciona um
centro cultural de exposições
permanentes, chão de duas pátrias
como é denominada pelas
autoridades da cidade, relembro
mais intensamente a figura
histórica, querida em duas nações,
que a habitou há 500 anos atrás.
Seu nome, Pedro Álvares Cabral, o
mesmo que ficou para a História
como o Descobridor oficial dessa
pátria irmã, do seu nome Brasil, a
terra de Vera Cruz.
Corria o ano de 1500 quando El-Rei
D. Manuel I lhe entregou o comando
de uma grande armada, que devia
seguir a caminho da Índia com o
objectivo de comerciar e fazer a
paz com reis dessas terras
longínquas que haviam hostilizado
Vasco da Gama e seus comandantes
aquando da primeira missão oficial
dos portugueses por essas rotas
das especiarias e de outras
riquezas cobiçadas pelos reinos
europeus.
No entanto segundo consta, El-Rei
teria também outorgado outra
missão, esta mais secreta ao
grande comandante, que seria
chegar a uma terra a ocidente, de
que o rei já teria conhecimento
por meios não oficiais, e tomar
posse dela para a Coroa
Portuguesa.
Assim fazendo um desvio inesperado
na rota, chegou a armada na semana
da Páscoa á vista de uma terra em
que se destacava um alto monte
arredondado, pelo que foi chamado
Monte Pascoal.
Desembarcando os portugueses,
ficaram surpreendidos pela
cordialidade e confiança daquele
povo, que os esperava na praia,
praticamente nus, não só de corpo,
como de maldade e malícia, puros
em suas intenções, gentis e
confiantes, tanto que o
Descobridor habituado ás perfídias
do mundo, custou a acreditar, mas
afinal ficou crente de ter chegado
a uma espécie de paraíso.
Com dificuldade, resolveu partir e
continuar na sua missão para a
Índia, onde sofreu tantos enganos
e foi vítima de tais logros, que
comparava esta terra ao inferno,
recordando os povos gentis e puros
que havia deixado e que de bom
grado confiavam nos estrangeiros e
comungavam das suas práticas
religiosas, de tal maneira que ele
acreditava ter conseguido uma boa
colheita de almas para a
cristandade.
No entanto, os enganos e batalhas
sequentes, não o impediram de
voltar com as naus que
sobreviveram carregadas de
especiarias e outras riquezas, que
descarregou nos armazéns do Rei, e
o tornou um pouco mais rico.
No entanto, este impelido pela
cobiça e más palavras de
conselheiros invejosos, não deu o
devido valor ao valoroso
comandante, e para lhe dar o
comando de uma nova armada, exigiu
que ele o dividisse com outro
navegador, o que Pedro Álvares
Cabral, considerou uma afronta que
o levou a abandonar a corte.
Veio então refugiar-se na sua casa
em Santarém, até á sua morte 19
anos mais tarde, e foi enterrado
na vizinha Igreja da Graça, onde a
sua sepultura se encontra até hoje
e é ponto de passagem para
visitantes de todo o mundo, em
especial do nosso querido país
irmão, Brasil, que nunca o
esqueceu.
Arlete Piedade
24 de Agosto de 2006
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