Apresentada por Joaquim Sustelo ao

Grupo Ecos da Poesia/MSN

 
 
 
 

QUANDO A CALMA EXERCE...

 

1

 

Acalentei minhas filhas em meu seio
Fiz delas o que pude sem poder
Com tantas intempéries de permeio
Que na vida, não mais irei esquecer

 

Reveses quantos foram? Tantos, tantos!
Enumerá-los nao serei capaz
Quanto pedi a Deus? Até aos Santos...
Para que no meu lar houvesse paz

 

Quantas vezes chorei sem que me vissem
Para que minhas filhas não sentissem
Fingia estar alegre e sorridente

 

Hoje penso... porque menti ao coração?
Talvez para encontrar a solução
Carreguei a cruz da vida calmamente.

 

2

 

Carreguei a cruz da vida calmamente
Calei a minha voz, olhei ao Céu
Senti que a minha estrela era cadente
Mas foi essa que um dia Deus me deu

 

O peso que me verga, que me rói
Em cada passo arrasto a minha dor
Esta dor que me domina e tanto dói...
Se é por pecado, perdoe-me o Senhor

 

Porque me castigais desta maneira?
Carreguei com uma vida de canseira
Eu, que perdoei tantas loucuras...

 

Quantos dias, quantas noites sem sossego...
Agora nesta idade ainda carrego
A mesma cruz, que deu tantas agruras?

 

3

 

A mesma cruz, que deu tantas agruras
Tantas desilusões e incertezas
Tantos becos sem saída e às escuras
Quantos atrasos de vida e tristezas?

 

Quantos mal entendidos e com razão
Duma vida, a dois, sempre em comum
Por vezes assaltada por traição
Que me deixavam, sem alento algum

 

Não quero recordar,  mas é mais forte
A lembrança, sem que queira, é o norte
Acorda a minha mente, adormecida

 

Sem que eu procure, não posso esquecer
Quantas vezes a chorar sem eu querer
Folheio as páginas do que foi a vida...

 

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Folheio as páginas do que foi a vida
Escrita a letra de água tão salgada
O quanto me marcaram ferida a ferida
Que dói inda que já cicatrizada

 

Ferida pelo amor, quanto eu sofri
Que eu mesma me designo mal amada
O que tinha de bom, tudo perdi
E hoje o que é que tenho? Tenho nada!

 

Estou velha, carcomida, e doente
Só eu sei o que meu coração sente
E já não faço nada que me valha

 

Desalento, desamor, desilusão...
Fazem de mim, trio de rebelião
Que quase tudo,  é já cinza de palha.

 

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Que quase tudo, é já cinza de palha
Que evaporou ao longo duma vida
O que me resta? É pouco e me baralha
Apenas sou uma tara desvalida

 

Apesar de não viver na opulência
Tive um lar pobre, mas aconchegado
Nunca se deve julgar pela aparência
Nem imaginar o que vai do outro lado

 

Criei as minhas filhas a meu jeito
Com amor e  decência, com respeito
Porém sempre umas crianças invejadas

 

Com os seus vestidinhos, que eu fazia
Punha neles o bom gosto, idolatria,
E como elas ficavam engraçadas!...

 

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E como elas ficavam engraçadas!...
De que hoje tanto me orgulho de o dizer
Para mim são as jóias mais prendadas
Que uma mãe simples faz enriquecer

 

Tiveram um bom pai, como quem tem
Nasceram dum casal, embora unido
Pela Lei de Deus mas algo aquém
Daquilo que no altar é prometido

 

Com uma dose leviana, imatura,
Muitas vezes a culpada, a loucura,
Dum certo devaneio estravagante

 

Mas muito foi querido e estimado
Pela muiher, pelas filhas, bem amado
Pena foi, que fosse tão inconstante.

 

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Pena foi, que fosse tão inconstante
E que sabor a fel no ar pairava!
A união, muitas vezes degradante
Que uma discussão não dispensava

 

Mas logo o perdão vinha ao de cima
Tentando esquecer, surgia a paz
E assim melhorava o nosso clima
Horas amargas ficavam para trás

 

O tempo foi correndo... lentamente
Um dia após ooutro, normalmente,
Segurando o amor que em nós havia

 

E as filhas cresceram, com saúde;
Dotadas de bastante, de virtude,
Que para quaisquer pais é alegria.

 

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Que para quaisquer país é alegria
Sentir que algo de bom anda no ar
Eu desdobrava-me!...Dia após dia!
Levando a vida, por diante a sonhar

 

Fui um poço inesgotável de paciência
De sonhos de ilusão, uma nascente!
Que me vem desde a minha adolescência
Duma vida em insonso e permanente

 

Eu tive altos e baixos, é incrível!
Batalhei muito, senti-me irresistível
Tive uma guerra, sempre sem clemência

 

Cada dia que passava era um combate
Logo pela manhã tocava a arrebate
Reunia os meus esforços com urgência

 

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Reunia os meus esforços com urgência
D'arma em punho, não me queria derrotada
Mas sempre em paz com a minha consciência
Em cada hora me sentia iluminada

 

Vinha do alto toda a força que tinha
De Deus, pela coragem, pelo amor!
Sempre sorri, cantando em ladaínha
Ao so1, e às estrelas, com fulgor

 

Tempos foram passando... até que um dia,
Já tudo em meu redor escurecia
Por uma nuvem negra que pairou

 

Vinha a noite caindo, lacrimosa
Numa chuvinha triste supersticiosa
E que, naquela hora, me marcou!

 

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E que, naquela hora, me marcou
Uma triste notícia me foi dada
Foi como um Castelo que desmoronou
Ou a Torre mais alta, edificada

 

Sentida foi a dor que me feriu
Da qual inda conservo a cicatriz
Por esse pai, marido, que partiu
E que a sua memória, não desfiz

 

Hoje, guardo no peito uma saudade
Encaro bem de frente a realidade
Sempre que volto atrás em pensamento

 

Não esqueço esse momento derradeiro
E quantas vezes choro, ao travesseiro
Que guardo para sempre o sentimento.

 

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Que guardo para sempre o sentimento
Naquele velho baú de recordações
Fechado como se fosse um testamento
Onde colecciono as minhas emoções

 

Cada uma, é uma página da vida
Que folheio de regresso ao passado
Quantas vezes à noite, perseguida
Fela insónia, em distúrbio desordenado

 

A noite é tão comprida! Infindável!
Só um sono solto me seria agradável
Para que sonhasse...ir mais além...

 

Voar no universo, ao infinito
Aonde tudo fosse mais bonito
Que pudesse abraçar a minha mãe!

 

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Que pudesse abraçar a minha mãe
Sentir-me ao lado dela,  protegida
Coitado que é o filho que a não tem
Que é a maior riqueza em cada vida

 

Ser mãe, é pagar a filiação
É sentir o amor maior do mundo
É o amadurecer dum coração
Um sentimento nobre e tão profundo!

 

É receber de Deus sublime oferta
É ir atrás da vida, à descoberta
Dum mundo recheado de mil cores

 

É ser a sentinela vigilante
É ser o sol da vida, confiante
Jardim emoldurado em lindas flores.

 

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Jardim emoldurado em lindas flores
Ser mãe é tudo isto e muito mais
E é mostrar ao mundo os seus valores
Seus dotes, seus instintos maternais

 

Que bom seria, a completa felicidade
Onde reinasse a paz e o amor
Que a vida fosse pura, sem maldade
Sem ódio, sem vingança, sem rancor!

 

O mundo seria emfim, bem mais bonito
Se o homem acabasse com o conflito
E depusesse as armas a um canto

 

Que semeasse a paz e o perdão!
A terra fecundada, daria pão
Quantos olhos secariam o seu pranto!

 

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Quantos olhos secariam o seu pranto
Quanta boca que cala e que não come
Crianças cobertas pelo mesmo manto
Desse espectro tão vil, da negra fome!

 

A destruição é triste e tão medonha!
Tantos lares desfeitos, sem defesa!
O homem já não crê e já não sonha
E mais! Já quer mandar na Natureza!

 

Dói! Saber que o mundo anda em revolta
Por uma ovelha negra, que anda à solta
Mandando e desmandando...quanto é feio!

 

Para quê guerrear? Não vale a pena!
Façam como eu: calma e serena
Acalentei minhas filhas em meu seio.

 

***

 

Lisdália Viegas dos Santos

 

1


Eu sou a brisa do poema errante
Que ando perdida em busca do amor
Nas asas do vento, num som ondulante
Hino musical, no seu esplendor

 

No espaço celeste rasgo a fantasia
Ao sol, às estrelas, e até ao luar
No meu peito albergo minha ousadia
Em sonhos deliro para te encontrar

 

Musicando os versos que para ti fiz
Tão doces, tão ternos, alma de raíz
Do meu coração brota a sinfonia

 

Sinto-me rolar em densa cascata
Por entre algas verdes, nas águas de prata
Em redemoínhos de eterna magia.


2


Em redemoínhos de eterna magia
Caminho pró mar em casca de noz
Num desespero, de angústia sombria,
Afogo o meu grito, calo a minha voz

 

Navego ao sabor da vaga ondulante
Mas no coração levo o meu amor
Para te ofertar ó meu terno amante!
Pudera eu amar-te sem trégua nem dor...

 

A maré vazia te deixa mais longe…
Na areia fina fico feita monge
Rezando por ti nas contas do terço

 

Embalo o meu sonho no peito dorido
Baixinho te canto junto ao teu ouvido
Enquanto tu dormes em suposto berço.


3


Enquanto tu dormes em suposto berço
Eu canto baladas de amor e ternura
Bordo no lençol o mais lindo verso
Nas cores de esperança, na mais doce jura

 

E à noite ao luar estou de sentinela
Ambos retratados pela mesma lua
Sabes, meu amor… vou mandar por ela
A boca faminta,  pra juntar à tua

 

A noite vai alta, é tardia a hora…
Esperarei por ti no raiar da aurora
Na maré enchente, pelo madrugar…

 

O meu coração, de si tão senhor,
Transborda alegria. Coragem amor!
De braços abertos te vou abraçar.


4


De braços abertos te vou abraçar
Num enleio profundo de terna magia
Se Deus nos deu vida não foi para amar?
Vela florescente que mais alumia!

 

No teu doce olhar, há paz e bonança
Quanto ao mar bravio ficou para trás
Fizera de ti a mais débil criança
Mas ele é teu mundo, tu lá voltarás

 

Na farda aprumado tu és o primeiro
Audaz e valente, nato marinheiro
Envolto em segredos das vagas em espuma

 

Sob o céu azul comandas a frota
Teu olhar se perde no voo da gaivota
Guardas as tormentas no peito, uma a uma.


5


Guardas as tormentas no peito, uma a uma
Que trazes pra terra no teu coração
Sem que tu consintas que te escape alguma
És o meu orgulho e até presunção

 

Eu te valorizo, fiel servidor
Da Pátria querida, do mar lés a lés
És o meu gigante, grande Adamastor
Embora não queiras, eu sei bem que o és

 

Há uma mulher que espera por ti
Que canta, que chora, mas feliz sorri
Por ver o seu bem ao ninho voltar

 

De tez bronzeada, de punho valente
De olhos lacrimosos, puro comovente
Lábios cascarrudos, queimados plo mar.


6


Lábios cascarrudos, queimados plo mar
Salgados mas doces, famintos de amor
Beijos femininos te irão saciar
Da sede e da fome, meu bem sedutor

 

Em vale de lençóis de linho ou cambraia
Me vem ao sentido o primeiro beijo
Onde te conheci, algures na praia
Saudosa estou… morta de desejo…

 

Mas hoje voltaste, estás a meu lado
O mar com ciúme ficou tresloucado
Chamando por ti numa fúria louca

 

Mas tu és tão meu! Não queiras voltar!
Não me deixes só! Não quero chorar!
Esta noite a mim,  me fora tão pouca!...


7


Esta noite a mim, me fora tão pouca!
Quisera meu Deus, não amanhecesse!
A vaga mais alta do mar, ficou louca
E homem de “duas”, a mim me enlouquece

 

Não posso! Não quero! Não vou perdoar
Que a vaga me traia sem compreensão!
Vou rogar ao Céu pra que amaine o mar
Que tu amor voltes, morra a solidão!

 

Entre nós, meu bem, há uma barreira
Que nos faz separar para a vida inteira
É cruel, desumano, assaz galopante!

 

Sobra uma cadeira sempre à nossa mesa
À qual os meus olhos com certa frieza
Procuram no vácuo o seu terno amante.


8.


Procuram no vácuo o seu terno amante
Em requebros as gaivotas, num doce voar,
Assim serei eu, no caminho errante
Sem que na terra te possa encontrar

 

Versando pra ti… poema a poema…
Sinfonia de amor, dum amor sem fim,
Com o coração preso a uma algema
Vida tortuosa… tem pena de mim!

 

Cansada da vida espero por alguém
Que partiu um dia, que já sei não vem
E à noite em silêncio eu oiço chamar

 

É uma ténue voz… é a natureza…
No escuro da noite, uma chama acesa!
É a solidão… que me vem falar…


9


É a solidão, que me vem falar…
Entre estas paredes, frias, sem calor…
A um coração quase a agonizar
De frio e cansaço,  e com tanta dor…

 

Oh, não! Não quero! Mas isto é de mais!
Quero a liberdade, a minha alegria!
O mar está louco! É só temporais?
Levaste o meu bem, quem eu mais queria!

 

Diz-me, mar errante, que vida é a tua?
Às vezes ameno, namoras a lua
Outras vezes manso, pareces criança…

 

A brincar na praia juntinho à areia
Na maré vazia, ou em maré cheia,
Na brisa que soa, em constante dança…


10


Na brisa que soa, em constante dança
Bates levemente de encontro ao rochedo
Sempre num vaivém, que aos poucos avança
Talvez inda me guardes aquele segredo!...

 

Que um dia te disse e que te pedi
Não contes ao sol nem tão pouco à lua
E nem às estrelas que vês por aí
Que de mim nem sabem as pedras da rua

 

Mar! Porque me levaste um dia à tardinha
O meu grande amor, ficando sozinha?
Quem pudesse segui-lo em asas de condor…

 

Mas tu repeliste-me, mandaste-me embora
Num leve suspiro, fumo que evapora
Meu bem amado, gigante Adamastor.


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Meu bem amado, gigante Adamastor…
Meu lobo do mar, de ti cativeiro!
Que tu, mar ingrato, me foste traidor
Levando-o para longe, feito prisioneiro

 

Eu em terra firme, sentindo-me em vão
Esperando plo dia da sua chegada
E olhando bem à tua dimensão
Senti-me ficar entre a parede e a espada

 

Cartas que eu ia lendo e relendo
Para me distrair as ia escrevendo
O meu dia a dia, era como um ano

 

Guardava num cofre a minha pureza
Porém duma coisa eu tinha a certeza
Com os olhos namorava, o vasto Oceano.


12.


Com os olhos namorava o vasto Oceano
Vagas altaneiras contava uma a uma
Naquele vaivém tão atroz, mundano
Que se desfaziam a meus pés, em espuma

 

Outras vezes o mar parecia um cordeiro
Que parecia vir comer à minha mão
Ia e vinha…melancólico e ordeiro
Como menino dócil, sempre brincalhão

 

Espreguiçava-se na praia, rolava na areia,
Quantas vezes de noite seguia a lua cheia
Até parecia querer beijá-la docemente…

 

As estrelas, de ciúme, no céu cintilavam
As Sereias ao largo alegres cantavam
A maré mais calma, subia vagamente…


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A maré mais calma subia vagamente
Balouçando o berço onde tu dormias
Só eu esperava por ti cegamente
Contando um a um… em todos os dias

 

Quando vejo o mar, choro de saudade
Do tempo que amei! Oh, eu nunca esqueço!
Esse amor finado foi na mocidade
Que nasceu em nós, num lindo começo

 

Tudo nasce, tudo morre, é o destino…
Será sina que se traz desde menino,
Nascer, crescer, amar… depois morrer?

 

Assim foi o grande amor que nos uniu
A falsa espada que um dia me feriu
Deixando lembranças, em mim a roer!...


14


Deixando lembranças, em mim a roer
Choraram meus olhos de tanta tristeza
Mas eu hoje quero apenas esquecer
Porém de uma coisa eu tenho a certeza

 

O mar que te levou, já se arrependeu
Hoje sorri-me… diz-se arrependido
Eu digo-lhe “Mar! Eu, já não sou eu!
No meu Tribunal foste absolvido!

 

Em tempos levaste, para além da barra
Um amor tão forte, como forte amarra,
Tu que me foste sempre confiante!

 

Vagueio ao acaso por falta de amor…
Procuro em vão o meu trovador,
Eu sou a brisa do poema errante!...”

 


LISDÁLIA VIEGAS DOS SANTOS
(Alcantarilha-Gare)

 

***

Esta senhora escreve assim. Mas, como tantas outras, não tem a divulgação que merece. Por isso, achei por bem divulgar aqui o seu nome, em alguns Grupos de poesia, na Internet. E prometo levar-lhe o carinho das vossas apreciações, se quiserem ter a amabilidade de as fazer. Seria uma grande alegria que lhe daríamos, podem estar certos disso!
Um abraço
Joaquim Sustelo

Caro leitor ponha a sua mensagem dirigida a Lisdália no nosso livro de visitas

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