Os políticos quererem ir comigo para a cama ou para o galinheiro. 

De: Carlos Pais

 

Acabei de mudar o meu voto para abstenção ... como forma de protesto. Eu era pelo sim, mas só para retirar a lei dos livros, porque penso que ela nunca devia ter sido lá colocada, já que considero que o problema é de consciência. O governo e os partidos políticos, numa sociedade democrática, não podem legislar consciências .... nem devem! O problema é com o homem (por acaso totalmente esquecido nos debates, não sei se repararam!) e a mulher, ou o homem e a galinha, ou qualquer que seja o dueto, porque para dançar o tango são necessários dois. Isto do governo ou os políticos quererem ir comigo para a cama ou para o galinheiro tem muito que se lhe diga!

Mas sou, irredutivelmente, contra o aborto, salvo caso exceptionais, onde é necessário escolher entre duas vidas. Há, contudo, outra situação em que também aceito o aborto: A gravidez forçada (rapto, incesto, etc.), mas aqui tem que haver uma penalização por essa gravidez terminada (e não interrompida, como muito sarcasticamente se vai dizendo!): O que a forçou!

E porque mudei eu agora o meu voto? Porque nos debates ouvi o apêlo ao voto e a denuncia da abstenção. Eu pensava que numa sociedade democrática a abstenção também era um direito do povo. Afinal, parece que não é! E os do lado do sim é que insistem mais nessa tecla e eu não estava a perceber porque. Tudo isto ao ponto de dizerem e proporem que se neste referendo não se voltar a encontrar uma maioria para o vincular, como aconteceu no referendo anterior, que o governo tinha que começar a pensar em voto obrigatório, isto é, penalizar quem opta por não votar. E dizem eles, como argumento para contrariar a falta de opções no referendo perante a diversificação ideológica que existe entre a população, como, por exemplo, SIM, NÃO e ABSTENÇÃO e que ganhe a maioria, que as pessoas podem votar em branco. É que há pessoas, muitas pessoas mesmo, que, como eu, pensam que este assunto, intrinsicamente ligado à minha consciência, não deve, sequer, estar a ser discutido na praça pública. Qual é a opção para essa gente? Obviamente, a abstenção. E o que é que eu descobri com essa do voto em branco? Finos que eles são e já têm é tudo preparado!

Tomemos, pois, este exemplo: Portugal tem 5,000,000 de votantes registados. O referendo só tem duas opções, SIM e NÃO. Devia ter, pelo menos, mais uma possibilidade vinculativa, até para desempate. Não tem! Então, desses cinco milhões, três milhões (60%) decidem ir votar. O voto será, portanto, vinculativo, porque votaram 60%. UM MILHÃO (33.3%) votou no sim, NOVECENTOS MIL (30%) votaram no não e UM MILHÃO E CEM MIL (36.7%) votaram em branco. E o que temos? A maioria, a do voto em branco, não conta e ganha o SIM, porque teve 33,3% e o referendo é vinculativo, porque 60% dos votos registados participaram na votção.

Estão a perceber esta estratégia? Estão a perceber o apêlo ao voto em branco? Votar em branco não é a mesma coisa que abster-se das mesas de voto. Por racionalização, até podemos dizer que votar em branco é a mesmo coisa que votar no sim. Pois é, são ou não são muito sabidos estes senores .... e senhoras!

 

Da minha parte espero ter contribuído, um pouco, para o esclarecimento popular.

Carlos Pais

A vitória da abstenção

Manuel O. Pina

 

O "Sim" ganhou na contagem dos votos válidos, com uma confortável margem sobre o "Não". Mas quem ganhou foi a abstenção, com quase 5 milhões de votos e quase 60 %, é realmente um grande e triste vitória daqueles que não querem saber de nada. Ou então querem saber e deram o recado: "resolvam como quiserem que para mim é igual". Acredito que muitos não saberiam o que votar, se votavam não, contra o aborto, ou se votavam sim, a favor do aborto. Mas outros devem ter a sua opinião formada e não foram votar, para além de outras presumíveis razões, pela ideia de se manterem "em cima do muro", como franco atiradores sempre prontos a lançar as suas críticas sobre o estado a que chegou a sociedade. É uma atitude hipócrita e imbecil, esquecendo-se que fazem parte dessa mesma sociedade e que, com atitudes destas, só ajudam à sua degradação.

A questão de ser contra ou a favor do aborto, salvo melhor opinião, acho que nunca se colocou. A maioria das pessoas, excepto talvez alguns gupos feministas, são naturalmente contra o acto de abortar. Independentemente das crenças religiosas envolvidas, que não esclarecem muito e lançam mais confusão ao assunto, qualquer pessoa de bons princípios sabe que se trata, efectivamente, de tirar uma vida, ainda que essa vida esteja no seu estágio inicial. Ninguém em sã consciência estará de acordo com isto, a vida é um direito alienável e ninguém tem o direito de dispôr da vida de outrem.  Portanto o que estava em causa neste referendo não era concordar-se ou não com o aborto, mas a sua penalização ou despenalização.

Não sei se o resultado, com uma abstenção tão elevada, é vinculativo. Mas se for, evidentemente que o aborto será despenalizado e a sua realização regulamentada, parece que poderá ser feito até às dez semanas de gestação. Logo os que se abstiveram irão gritar contra uma lei iníqua que permite às mulheres abortar. Se não queriam essa lei, tivessem votado.

Não acredito que a despenalização do aborto vá aumentar o número de actos que vêm sendo praticados. O problema é antigo e as mulheres, correndo o risco de serem processadas criminalmente, têm recorrido a ele de forma sistemática, fazendo-o de forma clandestina, muitas vezes em situações degradantes, ou indo fazê-lo a outros países europeus. Porque o problema não está na penalização ou despenalização, mas na consciência, não só das mulheres que o praticam, mas também dos seus companheiros, maridos ou afins. Infelizmente, por motivos absolutamente materialistas, a consciência não pesa nos actos de muita gente.

Manuel O. Pina

Mutação cultural no povo português

 

IGREJA CATÓLICA
CONSIDERA O RESULTADO DO REFERENDO AO ABORTO COMO UM SINAL DE MUTAÇÃO CULTURAL
de: Manuel Abrantes


A Conferência Episcopal Portuguesa, no final da assembleia plenária extraordinária, classifica o resultado favorável do Sim no Referendo ao Aborto como um “sinal de uma acentuada mutação cultural no povo português”, em resultado de uma “mediatização globalizada”.

Para a Igreja, o “individualismo no uso da liberdade” como maneira de pensar imposta por sucessivas políticas e a critica ao ensino por “lacunas na formação da inteligência”, já que o sistema educativo não prepara os alunos para se interrogarem sobre o sentido da vida e as questões primordiais do ser humano, foram as grande linhas do grito de alerta.
Os bispos lembram, ainda, na nota pastoral, que “o facto de o aborto passar a ser legal, não o torna moralmente legítimo”, acrescentando que o aborto continua a ser um pecado grave”, por não cumprir o mandamento “não matarás”.

Para a Igreja “o debate do referendo esteve centrado na justeza de um projecto de lei que, ao procurar despenalizar, acaba por legalizar o aborto”.
Numa nota dirigida aos médicos e a outros profissionais de saúde os Bispos apelam para “não hesitarem em recorrer ao estatuto de “objectores de consciência” que a lei lhes garante”.

As posições assumidas pela Igreja Católica podem ser o mote para que a questão do aborto não morra com a aprovação de uma lei. Acima de todas as leis do homem está a Lei de DEUS. Este, terá de ser o combate que todos os católicos terão de enfrentar.
O silêncio, o esquecimento e a conivência com o politicamente correcto, não podem ser apanágio de todos aqueles que fazem da Lei de DEUS a sua Lei Suprema.
Manuel Abrantes

“Aborto a pedido”

Brites de Almeida

 

Já vão três destas perguntas que se faz ao Zé, para ver se ele quer o se ele gosta de qualquer coisa. Mas até agora, os referendos serviram apenas para fazer duas perguntas. Uma, sobre a possibilidade de em Portugal admitirmos o “Aborto a pedido”, conforme ocorre na Europa “civilizada” que temos como modelo, embora não estejamos pelos ajustes quando se trata de trabalhar à europeia

A resultado do primeiro referendo sobre o Aborto, foi negativo, embora por uma margem muito pequena. O actual governo, tratou no actual caso de utilizar todos os recursos ao seu alcance para garantir a vitória do Sim. Era uma vitória esperada.

Quer pelos meios que a campanha favorável ao aborto teve à sua disposição, com o apoio de três partidos políticos (contra apenas um a apoiar o não), quer pelo apoio claro dos membros do governo. Mas não foi apenas a soma de apoios que garantiu a vitória do Não.

Entre as razões para essa vitória, encontra-se uma política de desleixo, propositada ou não, que teve um objectivo muito simples e de fácil prossecução: Não fazer nada e deixar que a situação se degradasse tanto quanto possível.

Não fazendo nada, não conseguindo implementar políticas sãs de educação sexual, apoio às famílias, apoio às mulheres grávidas, e incentivo aos nascimentos, o governo da República Portuguesa fez exactamente o contrário. - Complicou a vida às grávidas, fechando maternidades e cortando apoios sociais que permitissem encarar uma gravidez, mesmo uma gravidez inesperada, como algo de aceitável.

Foi efectuada uma pressão tremenda a nível da comunicação social, dando relevo ao facto de haver mulheres julgadas pelo crime de Aborto, esquecendo que nenhuma foi presa. Foram revelados problemas, apontados estrangulamentos, e exageradas as condições. Tudo foi feito para que o aborto ganhasse terreno, ao criar razões a nível da opinião pública para que o aborto fosse aprovado.

Os opositores acordaram demasiado tarde para a questão, não entenderam que tinham sido cercados e que a batalha tinha sido ganha na secretaria, e não na campanha eleitoral onde o debate de ideias, se resumiu a apoiantes do Sim a esgrimir argumentos que não fariam sentido, se o país tivesse trabalhado para realmente resolver o problema do aborto clandestino e a apoiantes do Não a esgrimir valores.

O principal argumento dos defensores do aborto, a prisão de mulheres pelo crime de prática de aborto, não foi um argumento sério, porquanto teria sido possível efectuar alterações à legislação que, evitando passar por cima de princípios, acautelassem o problema.  Foi preferível não fazer nada. Uma das regras utilizadas em Portugal para resolver problemas, e muito por causa de os portugueses serem um povo bastante conservador, é exactamente deixar apodrecer as coisas.

Consideram os políticos que é a única forma de realmente mudar alguma coisa...

Brites de Almeida \ Beja

SOM:  Syrinx fur Flote solo/for Flute solo - Claude Debussy

Powered by CódigoFonte.net