120 ANOS

DE

FERNANDO PESSOA

 

FERNANDO PESSOA

Adelina Velho da Palma

 

Parece-me que não há grande coisa a dizer. Que já foi tudo dito. O Poeta, a sua vida e obra há muito que foram espiolhados, dissecados, virados do avesso, alvo de estudos, sínteses e análises, tema de pós graduações, mestrados e doutoramentos. Assim como dos maiores elogios – o maior poeta do século XX, um génio, o (para muitos) supra Camões.

E o que é extraordinário é que a vida do Poeta é uma vida banal, sem aventura e sem história. Nada nela nos impressiona, surpreende ou arrebata. O próprio Poeta é um homem de aspecto apagado e tristonho, quase humilde. De facto, nada nele provoca espanto ou comoção. Nada, excepto precisamente a obra que deixou.  

Pessoa era um deprimido, um deprimido muito especial que não pôde permanecer espartilhado por uma existência enfadonha, explodindo numa miríade de personalidades distintas.

Como qualquer deprimido teria medos. E provavelmente, mais que tudo o resto, temeria o esquecimento. Todavia, consciente do absurdo da condição humana, sabia que tal seria o seu destino inexorável, indissociável que era do da Humanidade, da Terra e do próprio Cosmos. E é sobretudo na maneira de encarar e lidar com esse absurdo que as suas múltiplas personalidades se distinguem e afastam umas das outras.

O Poeta sofria. Mas não criava para minorar o sofrimento. Criava porque tinha de criar. Porque algo o possuía e o compelia a tal. Porque, pura e simplesmente, não podia deixar de o fazer. E, enquanto a memória daquilo que escreveu perdurar, continuará a emocionar, a espantar e a maravilhar as sucessivas gerações vindouras.

Parece-me, pois, que não há grande coisa a dizer. E aqui fica um poema do Poeta. 

 

Como a Noite é Longa!

 

Toda a noite é assim...
Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.
Vem pr'ao pé de mim...

Amei tanta cousa...
Hoje nada existe.
Aqui ao pé da cama
Canta-me, minha ama,
Uma canção triste.

Era uma princesa
Que amou... Já não sei...
Como estou esquecido!
Canta-me ao ouvido
E adormecerei...

Que é feito de tudo?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,
Dormir a sorrir
E seja isto o fim.

 
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