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PESSOA CANDIDATO A MELHOR PORTUGUÊS DE SEMPRE
Diálogo entre Fernando Pessoa e Álvaro de
Campos
(surpreendido por Teresa Rita Lopes)
Autora:
Teresa Rita Lopes
Cenário
qualquer serve: Brasileira, Martinho da Arcada, Irmãos Unidos…Álvaro
de Campos entra, estabanado, e senta-se à mesa, na frente de Pessoa,
quase lhe derrubando a chávena de café. Pessoa tem um sobressalto:
“Oh homem, que lhe aconteceu? Viu alguma assombração?” Campos
aquieta-se , encara-o e ri-se : “Estou a vê-lo a si – aqui, hoje,
fim de Fevereiro de 2007…” E riem-se, ambos, cúmplices nesta partida
que estão a pregar ao Tempo – que oficialmente os anulou há mais de
setenta anos.
Mas
Campos é sempre o mesmo espalha-brasas. Volta à carga: “Então já
sabe?”
Pessoa
faz-se desentendido: “O quê?”
- Que
está entre os dez mais votados portugueses de sempre, no concurso da
televisão!
Mas a
sua apresentadora fez tudo para dissuadir as pessoas de votar em si.
Vai ter o desgosto de ser batido aos pontos pelo Salazar! Sabe como
o introduzem? Dão ao público a alternativa de escolher entre
“inspirado” ou “alienado”…E a sua apresentadora, que deveria ser a
sua mandatária, parecia era estar ali a defender que você foi o
português mais chanfrado e mais bêbado de sempre!…Até contou aquela
conhecida anedota em que você se vangloria de beber não como uma
esponja mas como um armazém de esponjas, com um anexo ao
fundo…Reconheça que não é a sua melhor piada. E citou mesmo o seu
último poema a pedir “mais vinho” : “Dá-me mais vinho porque a vida
não é nada.”
- “É
nada!” “Porque a vida é nada”! Já sabe que eu não suporto que me
estropiem os versos!
- Foi
ela que disse assim. Olhe, até apontei aqui.
- “ A
vida não é nada” é uma banalidade que você tem obrigação de saber
que eu não diria. “A vida é nada” é outra coisa.
- As
suas subtilezas…Rala-se mais por lhe estropiarem um verso que por
ser apresentado como um bebedolas. E ainda por cima estoirado das
vergas. Quanto a mim, a pequena afirmou categoricamente que eu era
“homossexual”.
- A
culpa é sua que gostava de desempenhar esse papel para provocar os
pacóvios…
Até me
fez publicar aquele seu soneto em que fala, à Daisy, desse “pobre
rapazito” que lhe deu “tantas horas tão felizes”…
- Mas
também há essa Daisy…! E quantos mais poemas eu deixei a falar das
minhas mulheres…?É só uma questão de os ler. E de perceber que o que
eu sempre quis foi “viver tudo de todas as maneiras”, ser “toda a
gente”! Se levam ao pé da letra tudo o que eu digo nos meus versos,
vão acusar-me de opiómano, depois de ler o “Opiário”!
- Eu
bem me farto de dizer que “o poeta é um fingidor”…
-
Começo a ficar irritado por não conseguir irritá-lo. E fique
sabendo que , no que respeita à sexualidade, você não ficou mais bem
servido. Se a mim me apresentam como paneleiro, a si é como eunuco!
- Ó
Álvaro, por favor, palavrões, não!
- Ora
essa! Foi assim que eu chamei ao Walt Whitman, na “Saudação” que lhe
fiz e, que eu saiba, ele nunca reclamou…Você incomoda-se mais com os
meus palavrões que com essa imagem que deram de nós, de perfeitos
marginais…Só faltou chamar-lhe drogado e arrumador de carros!
- A
pequena não fez por mal…Não percebe as nossas encenações…Eu farto-me
de dizer que sou um poeta dramático mas as pessoas não percebem o
que isso é…
- Mas
olhe que ela fartou-se de encenar: disse que você escrevia de pé,
durante a noite…Os votantes vão achar que é mais uma chanfradice
sua…
- Gosto
que os leitores caiam nas ratoeiras das minhas ficções…Ela deve
ter-se lembrado daquela carta que toda a gente cita, ao Casais
Monteiro, em que eu lhe conto que no tal “dia triunfal” da minha
vida em que os heterónimos se me manifestaram, escrevi de enfiada os
poemas todos do “Guardador de Rebanhos”, de pé, junto de uma cómoda
alta – e acrescentei que era assim que eu gostava de escrever… Não
houve “dia triunfal”, como você sabe…Você, aliás, só nasceu para mim
três meses mais tarde. E essa da cómoda é pura encenação, a que
tenho pleno direito…
- Além
de encenar , a pequena fartou-se de inventar: até que você se
correspondia com o Search, imagine! Ah! e atribuiu-me a mim a sua
“Chuva Oblíqua” , publicada no Orpheu! Fique com ela! Nunca
apreciei esse seu exercício escolar de Interseccionismo, bem sabe. E
disse que o Caeiro era “um poeta clássico”. O Caeiro, imagine-se,
que faltava ao respeito a todas as regras, a todas as disciplinas…Ou
ela não sabe o que é um “poeta clássico” ou não conhece o Caeiro…
Pessoa
estava nitidamente divertido com a indignação do amigo. O que
aumentou a sua sanha:
- E não
o irritou a confusão grosseira que a pequena fez entre heterónimos e
pseudónimos, contra a qual você se insurgiu durante toda a sua vida?
Pensar que cem anos depois do Orpheu, ainda uma
apresentadora que tinha a obrigação de ser culta continua a não
perceber o que eram, para si, os seus heterónimos! ! E chamou
“último heterónimo” ao Barão de Teive! Você que se esfalfou a
afirmar que heterónimos somos só três, não se indigna com estas
calinadas?
-
Coitada! Se calhar estava a recitar uma lição aprendida à pressa e
atrapalhou-se!
- Mal
aprendida e mal recitada!
- Não
seja tão azedo com a rapariga…Quem o ouvisse ia pensar que é por
você ser homossexual…
-
Ria-se, ria-se, que ainda não sabe o principal. Disse da sua
Mensagem que aí você “entra pelo patriotismo exacerbado”! Estou
a vê-lo a encabeçar algum desses comandos de extrema-direita que por
aí andam a desancar os pretos…Olhe que ainda há muita gente
convencida de que você foi porta-voz do Salazar!
- Esse
“aldeão letrado”! esse “contabilista”, esse “seminarista da
contabilidade”!
- Fique
sabendo que você não se livra da fama de ter sido um fascistoide!
- Eu
que até denunciei o regime salazarista como “uma actual ditadura à
Mussolini”!
( neste
caso até num texto em francês, porque o queria que se soubesse disso
além-fronteiras).
- O
pior nem foi o que essa sua pseudo mandatária disse, foi tudo o que
não disse e viria tão a propósito dizer para você ganhar o concurso!
Você foi sempre tão militantemente português que até me irritava!
- Não
tinha razão… Sempre propus um “nacionalismo cosmopolita”, como sabe.
E que nunca tivéssemos “a alma limitada pela nacionalidade”.
- Tenho
que reconhecer que você levou toda a sua vida a querer impor
Portugal aos olhos dos seus compatriotas e do mundo como um “povo de
navegadores e criadores de impérios”. E isso desde a puberdade, em
que você descobriu, em Durban, que os trezentos alunos do seu liceu
não sabiam que o ponto da terra em que viviam tinha sido descoberto
por Vasco da Gama . Por isso planeou logo ensaios sobre esse nosso
navegador, e sobre os Lusíadas , que até começou a traduzir.
Sei disso por ouvir dizer, claro. Nessa altura ainda não nos
conhecíamos…
- É
verdade que vivi sempre com esse projecto de lutar contra a nossa
“descategorização civilizacional” .
- E de
ser um “criador de cultura” – único antídoto contra o fanatismo, a
ignorância e a tirania, que continuam a pôr o mundo a ferro e fogo.
Isto é que sim, o habilitava ao título, isto é que ela devia ter
dito! E também que você até criou uma personagem literária, Thomas
Crosse, para divulgar, em inglês, a cultura portuguesa. E desde a
sua juventude planeou escrever uma série de livros com esse
objectivo, denominada “All about Portugal” – de que ficou apenas
completo (ou quase…) um guia de Lisboa.
- Veja
lá se as pessoas pensam que eu quis orientar os turistas nas ruas de
Lisboa…O que de facto quis foi mostrar ao mundo, em inglês, o nosso
património cultural, para não pensarem que só temos sol e praias,
fado e caldo verde…
-
Confesso-lhe que sempre achei os seus projectos demasiado utópicos,
mas alinhei e alinho nessa sua campanha pela
pátria-língua-portuguesa , que você disse ser “a mais rica e
complexa das línguas românicas”.
- Disse
e digo. E quando falo de “Quinto Império” não estou a desejar que o
D.Sebastião volte para nos salvar. Sempre disse e escrevi que “não
há Messias. O máximo que um grande homem pode ser é um estimulador
de almas.”
- Foi o
que você quis sempre ser, eu sei…Embora eu ache isso um pouco
megalómano, desculpe que lhe diga…
- O
Quinto Império por que eu sempre ansiei foi o da língua portuguesa.
Já viu a força e o esplendor cultural que nós podíamos ter se
soubéssemos cultivar as nossas relações com todos os povos que falam
português por esse mundo fora?! Levei a vida a sonhar com isso. E
ainda sonho.
- Veja
lá se a sua apresentadora falou disso! Isso sim , é que faria de
você o melhor português de sempre!
-
Coitada, não era obrigada a saber estas coisas…
- Ai
era, era! Tudo isto está escrito em livros! Não ouviu os meus
parêntesis, quando eu o citava? A obrigação dela era saber, já que
se prestou a esse papel!
- Não
dê importância a ninharias…
- Já
agora , o que a pequena podia ter dito, quando falou do seu último
poema, o tal em que você manifesta a sua última vontade de emborcar
mais uns copos, (que esse poema sem rimas nem sequer é seu, é mais
meu que seu!) é que os seus, verdadeiramente seus, últimos poemas
datados , de 8/9 de Novembro de 1935, dois, e, outro, de 10 de
Novembro são de amor . Este último é inspirado não por uma
determinada mulher mas pela mulher-todas-as-mulheres que você sempre
amou e que, neste poema, você diz abraçar com “alvoroço” . Nos
outros dois confessa o seu amor ao corpo magro do seu “pobre
Portugal”, como lhe chama, esfomeado e oprimido por esse “Estado
Novo” que tentou ridicularizar num poema satírico desse mesmo dia.
Oh Fernando, você abalou da vida com esse amor insofrido entalado na
garganta, a doer-lhe no coração : “Meu pobre Portugal /Dóis-me no
coração” escreveu você. Será que isto, para a pequena, é
“patriotismo exacerbado”?
- Você
bem sabe que eu nunca tive sorte em concurso nenhum…
- A
verdade é que fomos sempre vítimas do poder.
- A
verdade é que nada disto tem a mínima importância…
- Tem,
tem! As pessoas não lêem os seus livros porque as pessoas lêem cada
vez menos livros mas televisão ah isso todas vêem. E é essa imagem
de si que vai ficar : chanfrado, bebedolas, maricas, fascistoide, a
escrever mensagens de “patriotismo exacerbado”…Até os meninos da
escola, quando você lhes sair no programa, se vão lembrar disso…
A
exuberância de Campos era tal que, na mesa vizinha, três homens
repararam neles:
-
Aquele não é o que apareceu na televisão no concurso do melhor
português, o Pessoa?
- O
Pessoa?
- Sim,
o bêbado!
- Ah!
o chanfrado da Mensagem! Se não é, parece!
- E o
outro deve ser o tal pseudónimo, o que só pega de empurrão…
Pessoa susteve
Campos, que se levantou de punhos fechados, direito à mesa dos
comentadores, agarrou-lhe o braço e, a muito custo, levou-o dali
para fora.
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