Saudades do Porto Cale 

Raymundo Silveira

 

A segunda vez em que me meti dentro de um asa dura a fim de me mandar rumo às terras de Portugal foi em 1984. Repeti com prazer toda a via-sacra dos turistas que vão pela primeira vez a Lisboa, mas agora, como fui sozinho – e quando digo sozinho quero dizer isto mesmo: absolutamente sozinho – visitei também outros lugares que não costumam fazer parte do destino dos rebanhos tangidos pelos guias de viagem. Refiz também todo o circuito da Estremadura e no outro dia, ai sim, me integrei a um grupo de excursão, onde só falávamos português eu, um casal idoso de São Paulo (Professor Porto e dona Rosinha) e obviamente a guia que se chamava Isabel. Havia gente de toda a Europa: alemães, holandeses, escandinavos e austríacos, principalmente.  

Como a Isabel sabia que eu entendia inglês, achou que com o professor e a esposa também ocorria o mesmo e só falava praticamente nesta língua e em francês. Como eles não reclamavam, eu também achei que entendiam O coitado do casal paulistano ficou praticamente a ver navios, digo melhor, autocarros, até chegarmos ao Porto. Somente quando estávamos à mesa do almoço no Hotel Infante de Sagres, cada turista falando a sua própria língua, dona Rosinha se virou pra mim e falou p. da vida em alto e bom som: “doutor, quer saber duma coisa? Vamos falar também a nossa língua?” Só então caí das nuvens e pude perceber o isolamento em que vinham ela e o marido. Começamos, então a conversar em “Flor do Lácio” e nos tornamos o foco das atenções. Os gringos olhavam para nós como quem encara ETs. Uma austríaca que tinha se tornado minha amiga (Brigitte, pelo menos foi este o nome que me deu), doida pra aprender a falar português, também ficou de queixo caído. “Vê, os nossos companheiros de viagem e eu não fazemos a menor idéia do que vocês dizem. Estamos todos estupefatos”. 

A partir de então a Isabel passou a falar também em português, mas de vez em quando precisava eu dar uma cutucada nela, do contrário continuaria só naquela lengalenga francobritânica. Naquela mesma tarde Brigitte e eu fomos curtir um cruzeiro de duas horas pelo Dorô, como ela chamava o Rio Douro. O cais estava uma imundície e o mau cheiro de peixe podre era quase intolerável. Não deveria escrever isto. Só o faço a fim de que minúcias como esta favoreçam as minhas livres associações e assim este relato se torne o mais preciso possível, pois quando viajo não costumo anotar absolutamente nada. O cruzeiro transcorreu normalmente, mas na volta... Tenho de confessar: quase fiquei pelo caminho. Do cais para o hotel havia umas ladeiras muito mais íngremes do que aquelas do Pelourinho da Bahia. A Brigitte era nada mais, nada menos do que alpinista. A desgraçada só me disse isto mais tarde. Subia aquilo como se estivesse caminhando numa maratona olímpica e eu, com meio palmo de língua de fora, fiquei, obviamente, pra trás. Quando cheguei ao hotel há muito tempo ela já me esperava no bar bebendo vinho. Do Porto, claro. Esvaziamos umas duas garrafas, depois fomos nos preparar para uma noitada numa casa de fados. Só fui saber que ela tinha ido porque me contou tudo depois, inclusive que teria esvaziado mais uma garrafa de porto. Quanto a mim, capotei e só acordei na manhã seguinte com a bruta duma ressaca. 

Neste mesmo dia saímos para um tour mais ao norte que incluía Guimarães, Braga e Viana do Castelo, passando por outras pequenas cidades, entre elas Póvoa do Varzim, terra natal de Eça de Queiroz. Em Viana do Castelo houve uma longa parada e a loira austríaca resolveu andar pela cidade naquele seu chouto de poldra braba e sumiu não apenas de mim, como de todo o restante do gado. Passou-se meia hora e nem fumaça de Brigitte. A Isabel puta da vida queria por cima de pau e de pedra que eu desse conta dela, “do contrário os dois ficarão aqui”, ameaçou. “Ficarão, Isabel? Diabéisso? Quéqueu tenho a ver com Mrs. Brigitte?”. “Ela não é sua namorada?” Tomara que minha mulher nunca leia esta escrevinhação! “Minha namorada? Só estou sabendo disto agora”. Enquanto estávamos neste foi num foi (ou é num é) e com mais de uma hora de atraso, lá se vem a Brigitte naquele mesmo chouto de poldra braba que ela mantinha quer como se estivesse caminhando pela Avenida Atlântica, quer como se subisse ou descesse a pé o Corcovado. Voltamos para o “Infante de Sagres” e, durante o jantar, entornamos mais uma garrafa de vinho branco. Depois ficamos a bebericar porto e a beliscar amendoim até pra lá da meia noite. Eu mais grogue do que um gambá e ela a parecer que tinha bebido água mineral o tempo inteiro.


 

 

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