trovinhas da Lisboa antiga:

LADAÍNHA DE SENTIDOS
Eugénio de Sá

Eu queria ser diferente
Quando te vejo
O meu desejo
Era olhar-te sem ver
Simples lampejo
Do teu corpo ondulante.
Queria passar por ti
Tranquilo, calmamente
Mesmo distante
Como de tanta gente
Por quem passo;
E Intuir-te a graça
Mas sem olhar p’ra ti.
Queria apartar de mim
O pensamento
Qual tormento
Do teu falar cantado
O doce acento
E a tua boca
Onde o sorriso brinca
E resplandece;
Como posso esquecer
O que não esquece?
Quem dera não parecer
que vou enlouquecer
por querer sentir-me imune
ao teu encanto;
Prouvera eu te ligasse tanto
Como me importa
O odor perfumado
Deste cigarro
Que fumo e logo esqueço
Quando se apaga o lume.
Mas só ando a fingir
Que não me iludo
Ganhei cisma em não querer
E queria tudo
Só que não sei mentir-me
Sou sincero,
E não posso fingir
o que não sou.
Sei que é estranha em mim
Esta dúbia atitude
De querer afastar
a quem venero
por não poder esquecer
o que não sei se quero:
- quem nunca, de si,
um pouco me quis dar.


****

nota do autor: (Poema inspirado num texto
de Adhémaro Gomes de Azevedo)

****

Esta Lisboa tão bela
Que tem o Tejo a seus pés
A chorar d’amores por ela

***

 

Madrugadas de Inverno

em Portugal 

Eugénio de Sá 

 

Nesta costa debruada a bruma

Gaivotas voam baixo amedrontadas

Porque aqui são assim as alvoradas

À beira deste mar que se desfaz em espuma

 

Rugem os ventos norte p'las arribas

Das falésias da Roca à Póvoa de Varzim

E os frágeis pesqueiros encostam varandim

Nos portos que os abrigam dessas brigas

 

Revoltas as areias nas dunas são sustidas

E os cacilheiros no Tejo bailam como nozes

Mas na Ribeira não se calam as vozes

Dos pregões do pescado na voz das raparigas

 

***

 

Quilhas no lodo

Eugénio de Sá

 

 

Quilhas sedentas d’água e tombadas

Naufragadas nos lodos de uma ria

São bolores de uma mágoa assaz sombria

Marinhagens de sonhos desgraçadas

 

Porque é preciso navegar-se a vida

Acordar nas bravuras de uma proa erguida

E anoitecer num fado que nos dê guarida

 

Viver a nostalgia desses horizontes

Onde a glória do sol emerge lentamente

Saber saborear as cores do seu poente

 

E feito disto o sonho português

De doiradas areias e um mar

de navegantes

E não de lodos vis, agonizantes

Em negação a tudo o que se fez  

 

A Portugal

Agosto de 2006

***

 

PROSA POÉTICA

(José Geraldo Martinez - Brasil, Carmo Vasconcelos e Eugénio de

Sá de Portugal)

 

PROSA POÉTICA! 

José Geraldo Martinez

Fala-me, Carmo, de teu Portugal!
Caminhas comigo por lá?
Será que Eugénio não nos espera
com vinhos e queijos do lugar?
De norte a sul, caminhas comigo?
Vinho. Preferes verde ou maduro?
Ao norte onde tudo começou...
Espumante? Imagino que Eugénio
esse ele não comprou!
Fala-me, Carmo, de teu Portugal !
Cova da Beira, Castelo Branco,
Covilhã... Fundão, Manteigas, Panamacor...
Leva-me à qualquer lugar que seja:
Castelo Rodrigo, Freguesias de Almeida.
Eugénio teria o Madeira, com certeza!
Aquele que perfumava o lenço das damas
da corte?
Malfasia? Viva! Tim, tim!
Desta ilha de comum beleza!
Gostaria de conhecer, minha amiga,
as belas praias do Algarve, onde o mar limpo
se escondeu...
Com suas imponentes falésias!
E, lá, poetarmos à beira-mar...
Tu, Eugénio e eu!
Poderíeis me levar, amigos,
ao parque natural de Montesinho,
onde eu possa sentir o vento daqueles
caminhos,
que a natureza guardou enciumada...
Os lobos que uivam na madrugada,
amantes da noites profundas?
Quero chorar naqueles fados,
cantados nas tabernas em penumbra!
Eugénio me acompanha
no canto imaginário com várias artistas...
Amália Rodrigues
ou preferes Maria da Fé?
Anita Guerreiro?
Dulce Pontes? Grande fadista!
Nessa terra deixei um dia um amor,
a sete chaves guardado...
Dói-me profundo na alma,
a melodia sentida de um fado!
Carmo e Eugénio de Sá,
me falem dos poetas portugueses!
A um iniciante, curiosidade normal!
Adoro Fernando Pessoa,
o grande Antero de Quental...
Florbela Espanca, António Gedeão,
poetas que admiro, deste belo Portugal!
Miguel Torga?
Camilo Pessanha?
Falem-me, amigos, enquanto do
 vinho eu trago a chorar minhas mágoas...
Sou um ébrio a fazer tempestade em
copo d'agua?
Faço uma prosa poética, uma viagem cibernética
no Portugal de meus antepassados!
Ah, Carmo, minha amiga e Eugénio,
viajo ao som de um fado?
Gosto de Lisboa,
muito embora tenha lembranças de Braga...
Ali um amigo está guardado e
outro em Ponta Delgada!
Carmo, minha amiga,
me levarias a Portimão?
Confesso a ti e a Eugénio,
lá sepultei meu coração!
Andemos, meus amigos,
meninos descompromissados...
Porto, Leiria, Coimbra,
qualquer lugar que eu não tenha passado!
Évora? Pode ser!
Gafanha de Nazaré, Vila Real,
Guimarães...
Por todas as cidades queridas de Portugal!
É barata esta viagem e divago coberto
de saudade, nesta nave virtual!
Com meus amigos ao lado:
Carmo e Eugénio de Sá,
nesta prosa poética...
Meninos descompromissados
viajando juntos, no berço dos antepassados!

_________________________________
Prosa poética dedicada aos meus amigos
Carmo Vasconcelos e Eugénio de Sá
 

www.josegeraldomartinez.hpg.ig.com.br/
martinez.ata@terra.com.br

 

*** 

 

PROSA POÉTICA

Carmo Vasconcelos 

 

Vem Poeta! Te falarei de tudo o que sei!

Do meu Portugal, da minha Lisboa onde nasci,

cresci, amei, ri e chorei!

O nosso amigo Gé esperar-nos-á com um bom vinho português

e ouvirá o que tenho para contar-te e falaremos de nós,

todos à uma ou cada um por sua vez.

Bem alegres por nos conhecermos, olhos nos olhos seremos,

veremos nossos sorrisos, e nossa voz ouviremos

como se em mundo real, diferente do virtual.

Tim Tim!

Isto merece uma saúde! E, por aí fora, quem sabe, duas ou três...

Verde ou maduro, tanto faz! E nós... Somos verdes ou maduros?

Boa pergunta! Quem responde?... Que avance o mais velho...

Todo o mundo se calou... ah, ah, ah! Ao silêncio me ajoelho!

Melhor esquecer a questão, que nossos anos já vão duros...

Mas, venham daí, Poetas! Posso tratar-te por Zé?... Ou não?...

Zé e Gé, até rima, como rimam dois irmãos nas trovas do coração.

Já sei! Queres ir ao Algarve...

Matar essa saudade do tal amor arretado

que deixaste por aí a sete chaves guardado...

Mas primeiro, damos um pulo ao Castelo... de São Jorge, é já ali...

O Gé será cicerone, nesta Lisboa raiz, que ele conhece a palmo

desde que inda era um petiz.

Subiremos as velhas escadas de pedra, de mãos dadas, sem dilemas

e lá no alto, cidade aos pés, Tejo ao fundo, entoaremos um salmo

e, quem sabe, não fazemos o poema mais profundo?

Na volta, vamos jantar ao Bairro Alto, bairro agora para turistas...

Tim, Tim e chouriço assado, arredada qualquer mágoa,

cantamos à desgarrada - Mano Gé, dá aí o mote...

que atrás da tua voz, as rimas saem a trote.

Mais queijinho, azeitonas, umas lascas de presunto

e uma dessas garrafas que dão vida a defunto.

Que as tempestades da alma não rugem em copo d'água...

Mais Tim, Tim! E o sentimento que jazia adormentado

vai chegando vagarzinho... E nós três,ombro a ombro, lado a lado

ouvindo os choros fadistas, choraremos nosso fado...

Amanhã, ébrios de sol, iremos até Belém, berço dos navegadores

subiremos à Torre, entraremos no Padrão,

e tu, Zé, sentirás, tal como eu e o Gé, pulsar o teu coração

pois foi daí que os valentes marinheiros,

corajosos, altaneiros,

trouxeram novas das Índias e Américas, paraísos promissores,

como o teu lindo Brasil, tua pátria... e nosso irmão

mercê do cruzar de raças, no enlace de mil amores.

Mais logo, pela tardinha, subiremos ao Chiado

para falarmos de Poetas, junto à estátua de Pessoa,

nosso mestre idolatrado.

Aí, dou a palavra ao Eugénio, Poeta mui inspirado

que à lembrança do Mestre, redobra de inspiração;

o estro iluminado pla sua pena que voa

dando voz ao coração.

E se bebêssemos um café?... Mesmo aqui, na Brasileira

onde Pessoa e Sá Carneiro tinham cativa a cadeira,

faremos a evocação desses poetas de outrora,

mais Pessanha, Florbela e Quental, sonetistas de primeira.

E de poema em poema, e de café em café, nos perderemos da hora.

Amanhã, pequeno almoço no Nicola,

pra iniciarmos o dia com o sorriso irónico do Bocage

que à nossa empáfia de poetas, sai do quadro da parede, e reaje

com uma picante graçola...

 Depois, amados amigos, sairemos de Lisboa

rumo ao Norte, depois Sul, de paragem em paragem,

respirando a doce aragem desta amizade poética 

em viagem cibernética.

Meninos descompromissados

de mãos dadas, pelo berço dos antepassados.

_____________________________________________________

 

Com emocionada gratidão ao Poeta e amigo Martinez,

pelo seu carinho, que me deu a oportunidade

deste amistoso exercício poético

O meu abraço carinhoso

Carminho

Lisboa/Portugal

8 de Março/2008

 

***

 

PROSA POÉTICA

Eugénio de Sá

 

Amigo, queres vir então até ao meu Portugal,

talvez matar saudades... pressinto-o no que dizes, Zé Geraldo.

 

Com a Carminho a dar-te a mão e comigo a teu lado,

Vem daí, meu irmão, vem olhar este país velhinho,

acolhedor e risonho. Vem conviver com as suas gentes,

vem beber do seu vinho, vem conhecer as entranhas desta terra

que contempla, há quase nove séculos, a gesta de um nobre povo

que estendeu as suas raízes pelos cinco continentes.

 

Comecemos pelo Minho, o norte do país. Do alto do monte Santa Luzia,

em Viana do Castelo.  Olha; mais a norte, costa Atlântica acima, 

podes ver Caminha na margem esquerda do Rio Minho.

Do outro lado, estende-se, a perder de vista, a hispânica Galiza.

Sente esta brisa fresca trazida nos Zéfiros que Eolo domina

aos comandos das vagas no Golfo da Biscaia, para lá do cabo Finisterra,

cem quilômetros acima, no topo nordeste da península.

 

Sabes... As imensidões verdes do parque nacional da Peneda Gerês,

de que falaste, têm de ficar para a outra vez. Embora eu te gostasse de mostrar

os segredos de Vilarinho das Furnas, de te falar dos lobos e dos garranos,

em liberdade, do São Bentinho da porta aberta, dos deliciosos formigos da região,

do azeite de Vila Flor, o melhor do mundo... mas não dá.

É tarde e temos de continuar viagem.

 

Agora vamos até Guimarães, onde Portugal recebeu o seu baptismo.

Vês, Zé Geraldo; lá está a estátua do nosso primeiro rei, Afonso Henriques,

o conquistador de Lisboa aos mouros, em 1 147.

Bebe este café conosco. Bom, heim...que cheirinho! - Hábitos que nos ficaram

dos produtos africanos das nossas ex-colónias.

 

 

E lá está o Douro, o grande rio, orgulho da gentes nortenhas,

O rio das escarpas a pique dos zigue-zagues entre os vinhedos

plantados em socalco, de onde sai o melhor vinho espirituoso do mundo;

o Vinho do Porto; ele próprio uma marca universal que prestigia,

há séculos, o nosso país. Vê os barcos Rabelo a transportá-lo em pipas

até à foz do rio, em Gaia, onde ficam as adegas das grandes marcas,

com cais próprios para cargas e descargas.

 

E olha, Zé Geraldo; a glória destes tons de arrebol a fazerem do Porto

uma autêntica pintura viva. Goza este panorama; as pontes,

a cidade, o rio...um deslumbramento.

 

Chegou a hora do jantar, a hora de oferecer um vinho daqueles que falas,

um vinho muito especial. Deixa-me abrir com jeito este Barca D’Alva de 1975,

um ano excepcional. Vamos decantá-lo, deixá-lo respirar e brindar a esta viagem

... lá vai: à nossa! – Que pomada! Cheira-me agora estes enchidos da beira,

prova esta alheira de Mirandela, este presunto de Chaves

... Inebria-te com os odores do bacalhau à lagareiro, do cabrito com arroz de forno,

e anima-te com este arrozinho de lampreia minhota...

depois, bem, que tal uns docinhos conventuais, destes aqui,

que são um autêntico pecado.

Gostaste? – Vejo-o na satisfação estampada no teu rosto!

 

Ultrapassada a bela Aveiro, a chamada Veneza portuguesa,

pela rede canais que a ria distribui pela cidade, prossigamos viagem

para o nosso destino final; a capital portuguesa, com paragem obrigatória

pela Coimbra dos estudantes, a bela cidade do Mondego,

ainda com memórias frescas das tricanas e do fado, tocado e cantado

em tons mais agudos que o de Lisboa mas, nem por isso menos belo.

E depois de uma rápida visita à universidade e à igreja de Santa Cruz,

palco de tantas serenatas ao luar, é tempo de provarmos

o incontornável leitãozito da Bairrada, ali a dois passos.

 

E agora Lisboa, finalmente, os seus encantos começam a desvendar-se,

à medida que vamos  desfiando os primeiros bairros da periferia.

Lá em baixo, onde se abre o grande estuário do Tejo, um dos maiores do mundo,

lá está o novíssimo Parque das Nações, construído para albergar a Expo-98,

a grande mostra universal, cuja organização foi aplaudida em todo o mundo.

E lá que se encontra o segundo maior oceanário do planeta. Temos de lá ir Zé Geraldo.

 

A Madragoa, a Graça, a Mouraria... todas as colinas de Lisboa

mergulham, graciosas, num só sentido; o do rio, como a prestar-lhe vassalagem.

 Lá no alto, o velho castelo de S. Jorge, parece zelar pela sua cidade

que há muito lhe ultrapassou as muralhas

e fez dele um pontinho sumido na imensa paisagem urbana

que o cerca de horizontes perdidos no casario.

 

Tarde caída e lá vamos os três ouvir o fado. Casa dos Bicos,

mais uns passos... e entramos em Alfama. Logo os primeiros acordes das guitarras

nos acordam da letargia que a proximidade do Tejo nos deixou no espírito.

Venham uns copos de tinto carrascão, um chouriço assado, umas azeitonas...

e entramos no ambiente. Canta uma tal Almerinda. E lá vamos acompanhando

o refrão, com a assistência. Noite dentro, e alçamos ao Bairro Alto.

Aí a coisa fia mais fino; jantar “a la carte”, fados e folclore pro turista ver.

Vimos, Zé Geraldo, Carminho; vimos os euros assustados a saltarem do bolso

em grande profusão. Mas aquilo é assim mesmo.

Para outra vez ficamos em Alfama...rs

 

Bem Zé Geraldo, chegamos ao último dia desta visita virtual.

Sugiro que visitemos Belém, a Praça do Império, onde os Jerónimos,

a Torre, que marca o local de saída das naus em demanda de novos mundos,

o Monumento às Descobertas, o Centro Cultural... todos nos esperam para a fotografia.

Não esquecendo uma rápida passagem pelos pastelinhos de nata locais,

famosos no mundo inteiro, até no Japão!

– Ah; mas primeiro venham daí até ao alto da Ajuda,

onde este vosso amigo viu, pela primeira vez, a luz do dia.

Cá estamos. Gostam? – Deliciem-se com esta panorâmica única;

a da barra de Lisboa, onde as águas do rio se misturam com as do oceano,

lá ao fundo, em Cascais... Bonito heim....

Logo à tarde vamos a Sintra, a Vila que Byron cantou, inspirado

pela doçura da sua luxuriante vegetação

e pelas cristalinas águas que brotam por todo o lado.

A Vila que faz da cultura a sua forma de respirar Portugal.

E aqui só entre nós; a terra onde se fazem os melhores travesseiros folhados

recheados de doce de ovos e as famosas queijadinhas. Uhm...

 

E à noite, para despedida, convido-os a jantar no Casino Estoril. Que tal?

 ________________________________________

 

Ao meu amigo José Geraldo Martinez,

Com carinho,

Eugénio de Sá

S. José do Rio Preto/Br

8 de Março/2008

 

 

Powered by CódigoFonte.net

 

contador, formmail cgi, recursos de e-mail gratis para web site