PROSA POÉTICA
Carmo Vasconcelos
Vem Poeta! Te falarei de tudo
o que sei!
Do meu Portugal, da minha
Lisboa onde nasci,
cresci, amei, ri e chorei!
O nosso amigo Gé
esperar-nos-á com um bom vinho português
e ouvirá o que tenho para
contar-te e falaremos de nós,
todos à uma ou cada um por
sua vez.
Bem alegres por nos
conhecermos, olhos nos olhos seremos,
veremos nossos sorrisos, e
nossa voz ouviremos
como se em mundo real,
diferente do virtual.
Tim Tim!
Isto merece uma saúde! E, por
aí fora, quem sabe, duas ou três...
Verde ou maduro, tanto faz! E
nós... Somos verdes ou maduros?
Boa pergunta! Quem
responde?... Que avance o mais velho...
Todo o mundo se calou... ah,
ah, ah! Ao silêncio me ajoelho!
Melhor esquecer a questão,
que nossos anos já vão duros...
Mas, venham daí, Poetas!
Posso tratar-te por Zé?... Ou não?...
Zé e Gé, até rima, como rimam
dois irmãos nas trovas do coração.
Já sei! Queres ir ao Algarve...
Matar essa saudade do tal
amor arretado
que deixaste por aí a sete
chaves guardado...
Mas primeiro, damos um pulo
ao Castelo... de São Jorge, é já ali...
O Gé será cicerone, nesta
Lisboa raiz, que ele conhece a palmo
desde que inda era um petiz.
Subiremos as velhas escadas
de pedra, de mãos dadas, sem dilemas
e lá no alto, cidade aos pés,
Tejo ao fundo, entoaremos um salmo
e, quem sabe, não fazemos o
poema mais profundo?
Na volta, vamos jantar ao
Bairro Alto, bairro agora para turistas...
Tim, Tim e chouriço assado,
arredada qualquer mágoa,
cantamos à desgarrada - Mano
Gé, dá aí o mote...
que atrás da tua voz, as
rimas saem a trote.
Mais queijinho, azeitonas,
umas lascas de presunto
e uma dessas garrafas que dão
vida a defunto.
Que as tempestades da alma
não rugem em copo d'água...
Mais Tim, Tim! E o sentimento
que jazia adormentado
vai chegando vagarzinho... E
nós três,ombro a ombro, lado a lado
ouvindo os choros fadistas,
choraremos nosso fado...
Amanhã, ébrios de sol, iremos
até Belém, berço dos navegadores
subiremos à Torre, entraremos
no Padrão,
e tu, Zé, sentirás, tal como
eu e o Gé, pulsar o teu coração
pois foi daí que os valentes
marinheiros,
corajosos, altaneiros,
trouxeram novas das Índias
e Américas, paraísos promissores,
como o teu lindo Brasil, tua
pátria... e nosso irmão
mercê do cruzar de raças, no
enlace de mil amores.
Mais logo, pela tardinha,
subiremos ao Chiado
para falarmos de Poetas,
junto à estátua de Pessoa,
nosso mestre idolatrado.
Aí, dou a palavra ao Eugénio,
Poeta mui inspirado
que à lembrança do Mestre,
redobra de inspiração;
o estro iluminado pla sua
pena que voa
dando voz ao coração.
E se bebêssemos um café?...
Mesmo aqui, na Brasileira
onde Pessoa e Sá Carneiro
tinham cativa a cadeira,
faremos a evocação desses
poetas de outrora,
mais Pessanha, Florbela e
Quental, sonetistas de primeira.
E de poema em poema, e de
café em café, nos perderemos da hora.
Amanhã, pequeno almoço no
Nicola,
pra iniciarmos o dia com o
sorriso irónico do Bocage
que à nossa empáfia de
poetas, sai do quadro da parede, e reaje
com uma picante graçola...
Depois, amados amigos,
sairemos de Lisboa
rumo ao Norte, depois Sul, de
paragem em paragem,
respirando a doce
aragem desta amizade poética
em viagem cibernética.
Meninos descompromissados
de mãos dadas, pelo berço dos
antepassados.
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Com emocionada gratidão
ao Poeta e amigo Martinez,
pelo seu carinho, que me deu
a oportunidade
deste amistoso exercício
poético
O meu abraço carinhoso
Carminho
Lisboa/Portugal
8 de Março/2008
***
PROSA POÉTICA
Eugénio de Sá
Amigo, queres vir então até
ao meu Portugal,
talvez matar saudades...
pressinto-o no que dizes, Zé Geraldo.
Com a Carminho a dar-te a mão
e comigo a teu lado,
Vem daí, meu irmão, vem olhar
este país velhinho,
acolhedor e risonho. Vem
conviver com as suas gentes,
vem beber do seu vinho, vem
conhecer as entranhas desta terra
que contempla, há quase nove
séculos, a gesta de um nobre povo
que estendeu as suas raízes
pelos cinco continentes.
Comecemos pelo Minho, o norte
do país. Do alto do monte Santa Luzia,
em Viana do Castelo. Olha;
mais a norte, costa Atlântica acima,
podes ver Caminha na margem
esquerda do Rio Minho.
Do outro lado, estende-se, a
perder de vista, a hispânica Galiza.
Sente esta brisa fresca
trazida nos Zéfiros que Eolo domina
aos comandos das vagas no
Golfo da Biscaia, para lá do cabo Finisterra,
cem quilômetros acima, no
topo nordeste da península.
Sabes... As imensidões verdes
do parque nacional da Peneda Gerês,
de que falaste, têm de ficar
para a outra vez. Embora eu te gostasse de mostrar
os segredos de Vilarinho das
Furnas, de te falar dos lobos e dos garranos,
em liberdade, do São Bentinho
da porta aberta, dos deliciosos formigos da região,
do azeite de Vila Flor, o
melhor do mundo... mas não dá.
É tarde e temos de continuar
viagem.
Agora vamos até Guimarães,
onde Portugal recebeu o seu baptismo.
Vês, Zé Geraldo; lá está a
estátua do nosso primeiro rei, Afonso Henriques,
o conquistador de Lisboa aos
mouros, em 1 147.
Bebe este café conosco. Bom,
heim...que cheirinho! - Hábitos que nos ficaram
dos produtos africanos das
nossas ex-colónias.
E lá está o Douro, o grande
rio, orgulho da gentes nortenhas,
O rio das escarpas a pique
dos zigue-zagues entre os vinhedos
plantados em socalco, de onde
sai o melhor vinho espirituoso do mundo;
o Vinho do Porto; ele próprio
uma marca universal que prestigia,
há séculos, o nosso país. Vê
os barcos Rabelo a transportá-lo em pipas
até à foz do rio, em Gaia,
onde ficam as adegas das grandes marcas,
com cais próprios para cargas
e descargas.
E olha, Zé Geraldo; a glória
destes tons de arrebol a fazerem do Porto
uma autêntica pintura viva.
Goza este panorama; as pontes,
a cidade, o rio...um
deslumbramento.
Chegou a hora do jantar, a
hora de oferecer um vinho daqueles que falas,
um vinho muito especial.
Deixa-me abrir com jeito este Barca D’Alva de 1975,
um ano excepcional. Vamos
decantá-lo, deixá-lo respirar e brindar a esta viagem
... lá vai: à nossa! – Que
pomada! Cheira-me agora estes enchidos da beira,
prova esta alheira de
Mirandela, este presunto de Chaves
... Inebria-te com os odores
do bacalhau à lagareiro, do cabrito com arroz de forno,
e anima-te com este arrozinho
de lampreia minhota...
depois, bem, que tal uns
docinhos conventuais, destes aqui,
que são um autêntico pecado.
Gostaste? – Vejo-o na
satisfação estampada no teu rosto!
Ultrapassada a bela Aveiro, a
chamada Veneza portuguesa,
pela rede canais que a ria
distribui pela cidade, prossigamos viagem
para o nosso destino final; a
capital portuguesa, com paragem obrigatória
pela Coimbra dos estudantes,
a bela cidade do Mondego,
ainda com memórias frescas
das tricanas e do fado, tocado e cantado
em tons mais agudos que o de
Lisboa mas, nem por isso menos belo.
E depois de uma rápida visita
à universidade e à igreja de Santa Cruz,
palco de tantas serenatas ao
luar, é tempo de provarmos
o incontornável leitãozito da
Bairrada, ali a dois passos.
E agora Lisboa, finalmente,
os seus encantos começam a desvendar-se,
à medida que vamos desfiando
os primeiros bairros da periferia.
Lá em baixo, onde se abre o
grande estuário do Tejo, um dos maiores do mundo,
lá está o novíssimo Parque
das Nações, construído para albergar a Expo-98,
a grande mostra universal,
cuja organização foi aplaudida em todo o mundo.
E lá que se encontra o
segundo maior oceanário do planeta. Temos de lá ir Zé
Geraldo.
A Madragoa, a Graça, a
Mouraria... todas as colinas de Lisboa
mergulham, graciosas, num só
sentido; o do rio, como a prestar-lhe vassalagem.
Lá no alto, o velho castelo
de S. Jorge, parece zelar pela sua cidade
que há muito lhe ultrapassou
as muralhas
e fez dele um pontinho sumido
na imensa paisagem urbana
que o cerca de horizontes
perdidos no casario.
Tarde caída e lá vamos os
três ouvir o fado. Casa dos Bicos,
mais uns passos... e entramos
em Alfama. Logo os primeiros acordes das guitarras
nos acordam da letargia que a
proximidade do Tejo nos deixou no espírito.
Venham uns copos de tinto
carrascão, um chouriço assado, umas azeitonas...
e entramos no ambiente. Canta
uma tal Almerinda. E lá vamos acompanhando
o refrão, com a assistência.
Noite dentro, e alçamos ao Bairro Alto.
Aí a coisa fia mais fino;
jantar “a la carte”, fados e folclore pro turista ver.
Vimos, Zé Geraldo, Carminho;
vimos os euros assustados a saltarem do bolso
em grande profusão. Mas
aquilo é assim mesmo.
Para outra vez ficamos em
Alfama...rs
Bem Zé Geraldo, chegamos ao
último dia desta visita virtual.
Sugiro que visitemos Belém, a
Praça do Império, onde os Jerónimos,
a Torre, que marca o local de
saída das naus em demanda de novos mundos,
o Monumento às Descobertas, o
Centro Cultural... todos nos esperam para a fotografia.
Não esquecendo uma rápida
passagem pelos pastelinhos de nata locais,
famosos no mundo inteiro, até
no Japão!
– Ah; mas primeiro venham daí
até ao alto da Ajuda,
onde este vosso amigo viu,
pela primeira vez, a luz do dia.
Cá estamos. Gostam? –
Deliciem-se com esta panorâmica única;
a da barra de Lisboa, onde as
águas do rio se misturam com as do oceano,
lá ao fundo, em Cascais...
Bonito heim....
Logo à tarde vamos a Sintra,
a Vila que Byron cantou, inspirado
pela doçura da sua luxuriante
vegetação
e pelas cristalinas águas que
brotam por todo o lado.
A Vila que faz da cultura a
sua forma de respirar Portugal.
E aqui só entre nós; a terra
onde se fazem os melhores travesseiros folhados
recheados de doce de ovos e
as famosas queijadinhas. Uhm...
E à noite, para despedida,
convido-os a jantar no Casino Estoril. Que tal?
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Ao meu amigo José Geraldo
Martinez,
Com carinho,
Eugénio de Sá
S. José do Rio Preto/Br
8 de Março/2008