POR TERRAS DA BEIRA INTERIOR
escreve Armando Figueiredo *


 
   As lendas e os contos populares que coloram de vida este Portugal abaixo das linhas dos rios e das serras da raia até ao mar, deixam-nos extasiados pela cultura popular e o património histórico que incorporam num pulsar colectivo, individualizante. Neles podemos ir buscar a nossa situação e posição genuínas para nos situação na «aldeia global», que nunca será global, porque a ela se opõe a diferença e a distinção, e são estas características que deslumbrarão sempre os outros povos cultivadores também das suas tradições. Estes apreciam-nas, respeitam-nas, fortalecem-nas pelo comentário crítico, e, por assim serem, respeitam e valorizam as outras.
    A História está sempre presente desde a formação da nossa identidade portucalense, e é em terras como as de Trancoso que vemos as vagas de fundo dum povo a assumir sempre a ideia-mãe de que há uma gente no meio de nós que nasceu para se agrupar, impor de acordo com os grandes e específicos sentimentos nacionais, que são no fundo os que norteiam a nossa vida colectiva desde o início da nacionalidade até aos dias que nos vão cobrindo de vida presente.
    Falar do homem aranha ou do homem macaco, de Aveloso, homem de prodígios na palavra de Albano Beirão, que era capaz de escalar paredes e comer e beber enormidades de comida e água, metendo-se como um furão em tocas de raposa, à espera que o ataque febril lhe passasse, é falar também do cavaleiro Magriço, o herói secular que foi cantado por Camões na epopeia, sendo este o mestre da peleja, defensor da dama inglesa vilipendiada por fidalgos da corte anglossaxónica, depois enamorado dela, aí restando construindo-se para ele o castelo em Penedono, obra de arte sui-generis erigido em memória e honra de autênticos cavaleiros da Távola Redonda - castelo este que nos povoa o imaginário infantil e adolescente, patente nas estórias aos quadradinhos de heróis de antanho, e nas revistas de cavaleiros andantes, ainda hoje lembrados e ressuscitados ou renascidos ao vermos in loco estas preciosidades arquitectónicas que se aglomeram na raia portuguesa confinada com Espanha desde Bragança a Vila Real de S.to António e a Valença.
Por falar no Magriço, na luta era ele quem faltava no início do duelo memorável em Inglaterra, causador de grande alvoroço - eram doze contra onze, uma donzela ficaria por ser vingada, ou todas se perdêssemos a contenda, vergonha para Portugal, se tal viesse por desgraça viesse a acontecer, contudo ...
“Viram todos o rosto aonde havia
A causa principal do reboliço:
Eis entra um cavaleiro, que trazia
Armas, cavalo, ao bélico serviço;
Ao Rei e às damas fala, e logo se ia
Para os onze, que este era o grão Magriço.
Abraça os companheiros, como amigos
A quem não falta, certo nos perigos.” Canto VI, Os Lusíadas
E os doze de Inglaterra, completados, travam acesa luta, “abaixam as lanças, fere a terra fogo”, e lá se cumpre o destino: os excelsos, feros heróicos lutadores lusos vencem os doze ingleses para glória nacional e restituição das doze inglesas à sua fama imaculada, após o despique armado gladiador:
“co’os nossos fica a palma da vitória,
e as damas vencedoras e com glória.” (Canto VI, est. 46)

    Flávio Egica, antepenúltimo dos reis godos de Espanha, fundou em Trancoso um templo, que alguns séculos depois, invocou o nome de Nossa Senhora da Fresta. Reinou depois uma febre perseguidora dos judeus em toda a vetusta Lusitânia... Confiscaram-se-lhes os bens, e nasceram os cenóbios, os templos e as ermidas. D. Afonso III dá-lhes foro e em 15 de Agosto, data na qual principia a feira famosa, a Feira de Trancoso que termina invariavelmente em 24, com um arraial fabuloso, a feira grande, dia de S. Bartolomeu. Mais além, D. Sancho II pernoitou em Moreira de Rei, a caminho de Toledo, daí lhe ficando o nome.
    Muralhas de castelos de defesa contra os espanhóis, pelourinhos de justiça para os malfeitores e símbolos vivos da autoridade senhorial, igrejas românicas, portões biselados e misulas, judiarias, torreões, torres de menagem, por estas terras passou um bom bocado da nossa miraculosa saga histórica, do nosso pulsar lusitano, que os artistas não se cansam de valorizar.
    Ainda mais aquém, Marialva das cinco portas, das duas igrejas ainda intactas, do pelourinho manuelino, dum tribunal pouco restante, da cisterna e da cadeia arruinadas, são pedras talhadas de terra digna de ser vista na evocação de um passado glorioso porque sobranceiro.
    Meda traz para recordar o Templo que parece uma Catedral com três grandes naves, dois excelentes edifícios: os dos Paços do Concelho e Solar das Casas Novas, terra de um passado histórico invejado, rico em etnografia e iconografia. Suas gentes são exímias trabalhadoras de zinco e dedicadas às arte da pirotecnia, da tapeçaria e rendas, e habitam ao lado, parece que amparadas por castanheiros, sobreiros, pomares em terras de cereal antigo, hoje cobertas de vinha, confeccionam queijos de grande qualidade, enchidos, cultivam legumes. No Rio Torto criam-se barbos, delícias servidas aos gourmands em pratos de escabeche, há cabritos prontos a honrar a melhor gastronomia, javalis desafiando a arma dos caçadores. A barragem retém uma água que sacia a sede dos campos que vão da Meda ao Pinhel, irmanadas pela marca renomeada dos seus vinhos.
Além do homem aranha, do Magriço, lendou-se Bandarra, o sapateiro-profeta da terra judia de Trancoso, e também João Tição, o soldado destemido que foi ao acampamento inimigo subtrair uma bandeira espanhola para a exibir triunfalmente quando entrasse no castelo, mas vendo o mesmo fechado hermeticamente, ainda tentou saltar com o cavalo a muralha, porém não o conseguindo atirou-a para dentro, sendo rendido ao cativeiro da tropa inimiga. Ficou-lhe o nome numa das quatro portas do castelo, a porta do Carvalho, encimada por um baixo-relevo representando o cavaleiro.
    Em terras de Trancoso, na Batalha de S. Marcos em 1355, comemorada em 25 de Abril, os portugueses puseram os espanhóis a «pão e laranjas», mas a dúvida subsiste: será que na rapina e no saque os portugueses ficaram sem todos os seus haveres, e ficaram estes a pão e laranjas? Todos os anos os meninos destas povoações mais próximas vão comer pão e laranjas ao planalto, onde a batalha se travou.
    Em 1703, o conde de Montarroyo, Luís de Figueiredo, sendo o capitão da armada, o súbdito nobre de máxima confiança de D. João V, titulado provedor dos Quintos Reais das Minas de Ouro do Brasil, homem de fé e virtude, quando enfrentou uma tempestade no alto mar, ao sair da Baía, e viu-se na contingência de perder a vida, tendo então feito uma promessa: construir uma capela como nenhuma houvesse em terras lusas, e assim se concretizou o seu desejo: em 1727 nasceu, uma belíssima capela em Torre de Terrenho que se revestia de grinaldas, sanefas e cortinas, fantasticamente cobertas a ouro. O conde vestiu na inauguração três pobres e mandou cantar missa na capela a 8 de Dezembro, dia da Nossa Senhora da Conceição. É celebrada nos dias actuais no dia de Reis, 6 de Janeiro. Esta figura histórica é característica na admiração popular porque além de se investir sacerdote aos sessenta anos, trouxe do Brasil uma menina mulata, filha duma escrava negra, e adoptou-a como filha, mas como esta não casou nem deixou descendência, vieram a herdar todas as terras, solar e capela, os primos de Luís de Figueiredo, conde de Montarroyo, título dado ao seu bisavô por feitos gloriosos rendidos à monarquia portuguesa.
    É com tudo isto, episódios como estes que se expandem, em matizes com tonalidades mais ou menos semelhantes, até ao limite territorial nacional, ainda com outros de outros sítios mais próximos e/ou mais distantes, que nos rezam estórias de árabes, fugas e raptos, mistérios e lendas, fábulas de mouras encantadas, combates de valentia lusitana, que Portugal se ilustra no conto histórico, na poesia laudatória, nas narrativas dos escritores românticos, de que Alexandre Herculano é mestre e senhor de gerações. Quanto mais conhecemos a gente que habita o nosso solo pátrio, mais razões temos para nos orgulharmos de sermos portugueses, mais vaidade temos em vestir as suas roupagens humanas, sempre todavia com simplicidade e a humildade de nos sentirmos pequenos em território, contudo enormes na nossa alma, assumindo mesmo, claro, os nossos defeitos que não são motivo de culpa e vergonha, porque se os houve, eles eram iguais aos demais (os dos outros povos), e eram característicos das épocas históricas vividas no percurso civilizacional, muitos deles extintos pela observação correcta, pelo estudo ponderado, pela compreensão activa, pela formulação rigorosa, cuidada e abrangente, e pelo consenso alargado, antes ainda de outros povos o terem feito, impondo-nos assim como um exemplo que esses outros seguiram, adoptando as nossas correcções de filosofias e políticas opressoras, a extinção da prática de condutas que se arreigavam em erros históricos, fundados em economias totalmente selvagens, liberais, por considerarem que fomos, somos e seremos cada vez mais justos e tolerantes (sem deixar de modo nenhum de perseguir, condenar e punir a maldade - o que é a melhor virtude, o melhor valor a preservar); e, finalmente, porque damos grande importância e preocupação aos ditames da consciência e da Justiça.

 

 

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