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QUATRO FIGURAS HISTÓRICAS EXEMPLARES
escreve Armando Figueiredo *
1.
Álvaro Gonçalves Coutinho (SÉC. XV),
2. O Marquês de Marialva (SÉC. XVI)
3. E o Conde de Montarroio (SÉC. XVIII)
4. O Marquês de Sá da Bandeira (SÉC. XIX)
5. Esboço da alma lusa, a partir do grupo retro-articulado
1.
D. Afonso II doou este planalto e sua povoação, a “Vila” de
Marialva, a uma sen-hora de nome Maria Alva por quem, rezaram
as más línguas, ele se teria apaixonado.
Marialva, no distrito da Guarda, no meio de um deslumbrante
vale arborizado por castanheiros de porte secular, situa-se
agora, num planalto desabitado e é o ter-ritório de Portugal
que mais emociona os amantes da História pátria, pela sua
grandeza e pujança simbólicas, ainda que nos dias de hoje a
vila medieval mural-hada esteja no mais puro abandono, à mercê
da bicharada - ruminantes e aves. Ainda há alguma coisa de
deslumbrante para ver, como sejam a Igreja e a Capela com
púl-pito exterior, que estão intactas, a Torre de Menagem,
vestígios do Tribunal, cadeia, cisterna, os dois postigos e
duas portas (Porta do Anjo e do Monte) li-gadas por uma
calçada antiga, circundando um montão de ruínas, cinco torres,
a al-cáçova, e esse exemplar espécimen de estilo manuelino que
é o pelourinho onde se enforcavam os malfeitores em frente da
antiga Casa da Câmara.
Os quatro honrados e glorificados senhores, escolhidos em
epígrafe, estão ligados entre si pelos laços que levaram
Marialva e (ao lado) Terrenho a ser Condado primeiro (por
iniciativa de D. Afonso V ao doar este território a D. Vasco
Fernan-des Coutinho), e ser Marquesado, mais tarde, por mercê
de D. Afonso VI que concede a D. António Luís de Menezes, o
título de Marquês de Marialva, sendo este, já na ocasião, o 3º
Conde de Cantanhede.
A primeira figura destacada na epígrafe deste trabalho,
popular e heroicamente al-cunhado ou cognominado O MAGRIÇO é
um lídimo representante dum esteio de gente ilustre e valorosa
que a História nacional não mais vai esquecer; era bisneto do
Marechal do Reino Gonçalo Vasques Coutinho, neto do 1º Conde
de Marialva, já citado anteriormente, D. Vasco Fernandes
Coutinho, Marechal do Reino, Senhor da vila de Marialva,
Alcaide-mor de Trancoso, e era filho do 2º Conde de Marialva,
Gonçalo Vaz Coutinho. Este, seu pai, foi Meirinho-mor do Reino
e Alcaide-mor de Trancoso e Lamego, homem que à Pátria deu a
sua vida em combate na tomada de Tânger em 1464.
Não foi só O MAGRIÇO, descendente desta família nobre, que se
notabilizou pelo episódio de OS LUSÍADAS (Canto VI), mas quase
todos os condes; o 3º destacou-se na tomada de Arzila, o 4º
foi penhor de Castelo Rodrigo e 2º Duque de Loulé, a 5ª
Condessa de Marialva e 3ª Condessa de Loulé, duquesa da
Guarda, casada com o in-fante D. Fernando, duque da Guarda,
filho de D. Manuel I.
O MAGRIÇO, Álvaro Gonçalves Coutinho, feito herói nacional na
epopeia de Luís de Camões, foi um dos destacados cavaleiros do
torneio de luta entre portugueses e ingleses, figura ímpar que
ficou para a posteridade com o nome de OS DOZE DE INGLATERRA.
Era rei, o vitorioso D. João I, o da Boa Memória, o
restaurador da nossa independência, séc. XV, contra a regência
de Leonor de Teles, ficando céle-bre a morte do Conde Andeiro
(ver Crónicas de Fernão Lopes), a insurreição em Lis-boa, e as
Batalhas de Aljubarrota e Valverde.
Ninguém melhor do que Luís de Camões, foi capaz de
caracterizar este valente luta-dor, exímio gladiador em
torneios de morte a cavalo, tendo permanecido para a
pos-teridade como o mais conhecido nos versos da epopeia OS
LUSÍADAS.
Foi este herói de bravura inexcedível que se juntou à dúzia de
cavaleiros portu-gueses que foram desagravar a honra de outras
tantas damas inglesas que haviam sido ofendidas por cavaleiros
indignos seus compatriotas. Dirimiu-se o pleito com a vitória
dos portugueses. Permanece em Inglaterra durante alguns anos
na compan-hia da dama inglesa por quem lutou e vem depois dar
vida ao célebre Castelo de Penedono, feito à medida do feito
histórico praticado em Albion, Castelo este que é um
deslumbramento para quem o visitar e faz reanimar o imaginário
das estórias da nossa infância e adolescência, lidas então em
estórias aos quadradinhos e re-vistas de aventuras de
cavaleiros andantes.
É o Magriço um dos melhores exemplares do carácter português,
o homem que defende a Justiça, neste caso, traída e humilhada
pelos ingleses que afrontaram a honra das damas, mas logo
reposta pela luta em que os portugueses saíram vencedores.
2.
O primeiro Marquês de Marialva foi D. António Luís de Menezes,
terceiro Conde de Cantanhede, nascido em 1603, fidalgo que
tomou parte activa na Revolução de 1640 e foi heróico vencedor
nas Batalhas de Elvas e Montes Claros. O 4ºMarquês de
Mari-alva D. Pedro José ficou célebre pela sua coragem,
valentia na Última Tourada Real em Salvaterra. Seu filho D.
Manuel José teria sido morto numa das lides tau-romáticas em
voga na época.
Reinava D. José que se opôs em vão à iniciativa do Marquês.
(1).
Para sabermos da vestidão de domínios, no concelho próximo de
Cinfães, Nespereira pertenceu à casa dos Marqueses de Marialva
(2).
Este episódio conhecidíssimo e cantado por poetas, e fadistas,
é dum exemplos típicos do amor paternal, expresso na dor e sua
expurgação. O castigo da morte dum filho paga-se com a vitória
sobre a brutalidade irracional do animal feroz.
A casa aristocrática de Marialva, Marquesado, alia-se na
sucessão aos Condes de Cantanhede, aos condes de Angeja,
duques do Cadaval, de Lafões, ao Marquesado de Arronches e aos
condes de Miranda do Corvo
3.
Outro episódio sublime pela expressão da fé, e cumprimento de
promessa feita, é o de Luís de Figueiredo, Conde Montarroyo,
em terras de Terrenho, ali ao lado de Marialva, hoje Torre do
Terrenho. Reza a história que este Conde, provedor dos Quintos
Reais das Minas de Ouro do Brasil, de aflito, entrou em pânico
diante das tempestades que assolavam os mares da Baía, que
tempestades violentas que sur-preendem nos altos-mares os que
neles se aventuram e no mais entranhado dos pâni-cos, prometeu
a Nossa Senhora uma Capela, como não houvesse outra igual, em
terras lusas. Assim, nasceu erecta, actualmente em obras de
restauração, em Torre do Ter-renho, digna de se ver,
deslumbrante. Em 1727 foi concluída com um cunho original.
Nela se encontram os retratos desenhados do Conde de
Montarroyo, Luís de Figueiredo, numa delas vestido como
capitão da armada, noutra como sacerdote aos sessenta anos de
idade, dignidade que lhe foi conferida, dado o seu virtuosismo
declarado e por seu estudo e vontade nessa idade. Curioso o
carácter do homem da máxima confiança de D. João V, que lhe
trazia o ouro do Brasil, pois que trouxe de lá a filha duma
escrava negra, uma mulata, adoptou-a como filha, e como esta
não tivesse casado, a herança do condado passou para as mãos
dum primo direito. Na capela fizeram-se milagres de cura. O
Brasão deste solar mostra o escudo dividido em quatro casas
nobres: Figueiredos, Osórios, Ataídes e Coutinhos, pois houve
ca-samentos entre seus familiares, compondo-se assim cada
quartel.
4.
O Marquês de Sá da Bandeira, Bernardo de Sá Nogueira de
Figueiredo, nascido a 1795, recebeu o título aos 69 anos de
idade, depois de sido Barão de Sá da Ban-deira aos 38 anos, um
ano depois foi promovida ao Viscondado, pelos serviços
rele-vantes prestados ao serviço da Pátria, tendo sido para
Alexandre Herculano “o por-tuguês mais ilustre do seu século”.
É revelador da sabedoria deste historiador, referenciar o seu
domínio do seu século nos escritos históricos e de lendas e
con-tos populares, de resto enquadradas nas teorias
ideológicas do romantismo, que ele sobria e espartanamente
soube tratar, com invulgar mestria, deixando para as gera-ções
seguintes um manancial de textos primos, ainda hoje com
imensos e justos ad-miradores.
Bernardo de Figueiredo foi um dos sete mil e quinhentos que
desembarcaram na praia do Mindelo com D. Pedro IV, lugar onde
hoje se encontro um monumento em homenagem ao desembarque.
O episódio que ficou para a posteridade, foi-nos dado pelo seu
sentido do dever solidário perante os soldados que o seguiram
na batalha do Alto da Bandeira, em Vila Nova de Gaia, onde foi
ferido no braço direito, obrigando-o à sua amputação.
Registe-se, no entanto, que apesar de ferido, não quis, por
dever de protecção aos soldados, ser evacuado da batalha, mas
antes continuou a sua tarefa bélica pre-cavendo os soldados de
desorientação moral e mortal, pondo em prática um plano de
defesa para que eles regressassem à base sem baixas. Só depois
aceitou ser levado ao Hospital da Praça da Batalha. Amputado
do braço, entretanto, desempenhava as funções de governador do
Porto. Apesar de mutilado, o Marquês de Sá da Bandeira, no fim
da vida, surdo, sem eloquência, apagado na escrita, todos os
contemporâneos concordavam ser ele um dos vultos mais
relevantes do Portugal de Oitocentos, uma vez que os seus
serviços a favor da Pátria foram destacados pela sua índole de
homem convicto nos valores mais preciosos conservados na
memória dos portugueses.(3)
5.
Amalgamar os heróis, ou seja os exemplos, acrescentar outros,
unir os traços co-muns e extravasá-los, enfeixar as
características e expandi-las por todas as outras que na
síntese revelam a alma lusíada, a alma portuguesa, unir o que
tem força e somar-lhe mais virtudes que a individualizam,
chegar ao protótipo do povo que vive dentro de nós, e nos
distingue de outros povos, nem melhores nem piores, apenas
diferentes, no que é possível distinguir, eis um esboço que
sai deste artigo, na esperança de que se possa meditar sobre
ele, o que quer dizer sobre a nossa identidade. É tudo uma
questão de boa amarração, pilares no cais onde anco-rar o
barco do ser português, do estar dum povo, que lutou sempre
pela sua independência e pelos valores em que apostou e
aposta, porque é deles que sobrevive, sentindo-se assim como
Nação com os seus pergaminhos, a sua história, e o seu
or-gulho muito bem fundado, sem dúvidas ou subtilezas, que
para aqui não são chamadas, porque ser é como estar na sua
profundidade e no sem máximo de amplitude.
Os três episódios retrocitados que ilustram a alma partes da
alma lusa, este tríp-tico seleccionado pelo sangue, só é um
todo se lhe acrescentarmos outros, de igual relevo, mas desses
outros apenas farei breve referência, por necessidade de
de-limitar o que neste mini-ensaio vai dito.
O primeiro (o do Magriço) é um exemplo da Justiça ameaçada, na
ocasião devida re-posta, pela bravura dos cavaleiros
portugueses, bravura esta aplicada a favor da honra das
mulheres (aqui, fidalgas) afrontadas por aristocratas da corte
an-glosaxónica.
O segundo demonstra a dor e a revolta do pai que não obstante
a sua idade avançada, respeitável, vai vingar o filho, já
morto (sendo a morte entendida ali como o ultraje à valentia),
humilhado no chão estendido, sem nunca mais poder fazer
deslumbrar plateias nem o próprio pai, vencido pelos cornos
loucos dum touro en-furecido.
O terceiro é um hino à bravura, há fé cristã, de um Conde que
promete a Nossa Sen-hora uma Capela como não há outra igual
neste torrão de Portugal.
O quarto é um exemplo, que se repetia desde o início da
nacionalidade, e repetiu tantas vezes na guerra colonial: o
sentido do dever solidário. Contaram-se por milhares, os
chefes de pelotão e de companhias que se distinguiram pelo bom
en-caminhamento dos soldados debaixo de fogo, feridos ou
mortos na Guiné, em Angola e Moçambique. Quantos enfermeiros
dos grupos de combate, se votavam ao socorro dos feridos, no
aceso da luta e correndo o perigo de morte; afadigavam-se, sem
medo, a amparar e tratar os feridos e moribundos, alheando-se
do risco extremo. Foram os exemplos de dedicação e
solidariedade dada pelos antepassados que temperaram a alma
lusa, dando-lhe o brilho que creio não ser exagerado se disser
que não houve outro povo, que fizesse melhor. Igual certamente
houve. Melhor, não conheço sincera e convictamente.
Em suma, o carácter, como causa e efeito da alma, produz o
castigo da maleficência (no 1º), o sentimento faz agir o amor
paternal (2º), e a fé faz mover moinhos (3º), e a devoção à
causa do dever solidário (4º); são estes factores que
amalga-maram uma parte da alma que brota desta terra, desde a
Idade Média, o que enaltece o carácter do cidadão português.
Mas, se este quadro tetravalente citado atrás, assim
estruturado em factos históricos, assim colorido com as cores
do signo da escrita, e assim finalizado para formar a alma,
muitos outros casos existem todavia noutras regiões, que
de-finem o carácter do ser português (que podiam ser, noutro
trabalho, meu ou de ou-tros, acrescentados, ou até mesmo
neste: a saber - o patriotismo da Inês Negra (Melgaço), a
heroicidade da padeira de Aljubarrota (aí), de Nuno Álvares
Pereira, exemplo de humildade cristã, fé na determinação e
coragem correspondida, a insub-missão de Maria da Fonte contra
o reformismo e a invasão burocrática (reacção ao cabralismo no
Minho, 1846), a revolta de Catarina Eufémia contra o Estado
opres-sor, a reposição da Justiça na acção popular de Fafe
contra a maldita maleficên-cia, a abnegação patriótica de
Filipa de Vilhena.
São muitos os exemplos de coragem, de valentia e de fé, são
afinal todos os que revestem as batalhas contra invasores,
romanos, mouros, espanhóis e franceses. Há ainda os episódios
do humor e ironia à portuguesa: Caetano Veloso desce afoito a
ladeira, mais fácil de descer do que de subir (in OS LUSÍADAS,
Canto ?), da crendice popular - a dama pé de cabra da A.
Herculano e outras de escritores regionais, da tenacidade,
orgulho e certeza do trabalho bem feito - o mestre Afonso
Domingues, in conto A Abóbada de Alex. Herculano, castigo do
orgulho nacional ferido - o que é o mesmo que dizer: o castigo
da maleficência (a Morte do Conde Andeiro nas crónicas de
Fernão Lopes), dos receios da nossa grandeza virtual,
potencial (o Velho do Restelo), o regresso de D. Sebastião tão
tematizado na nossa poesia, sugerido por Almeida Garrett no
teatro, e mesmo por Fernando Pessoa, a es-perança num ideal (
entroncado no recém-citado - o sebastianismo), Camões por ele
espera, da ladinice popular, reavivada por escritores de
grande mérito: Gil Vicente, Camilo Castelo Branco, Vergílio
Ferreira, João de Araújo Correia, Albano Beirão, Jorge Tuela,
etc., etc., da hipocrisia conselheiral, ministerial,
corpori-zada no Conselheiro Acácio de OS MAIAS, do novo
riquismo do Estado com início em D. João V (O Convento de
Mafra), reforçado com D. Manuel, e desespoletado com grande
aparato por Oliveira Salazar (Comemorações aos Descobrimentos,
nos anos 30), seguido de perto por Cavaco Silva (Centro
Cultural de Belém, e desembocando num ímpeto democrático de
raiz duvidosa no Parque das Nações, ex-Expo98), sendo esta uma
característica da nossa burguesia endinheirada por artes
financeiras, não sendo, todavia, uma característica do nosso
povo mais humilde que ganha o seu dia-a-dia com esforço,
abnegação e seriedade.
Finalmente, não poderia deixar de citar o episódio de Inês de
Castro, como exemplo da capacidade de entrega ao amor absoluto
(uma extraordinária capacidade do homem português) que não é
só platónico como também epicurista, concupiscente, luxu-rioso,
e ao mesmo tempo sublime (este episódio, além de ser
magistralmente tratado por Luís de Camões, foi também
teatralizado por António Ferreira e Henry de Montherland, in
“La Reine Morte”).
Ago / 00
(Obs. Na transferência de ficheiros do modo htm para txt, o
texto aparece gralhado com hífens a mais, facilmente
detectáveis e inócuos)
(1) Lello Universal, Ed. Lello & Irmão, Porto, 1981
(2) Terras de Serpa Pinto, Ed. Revista da Câmara Municipal de
Cin-fães, pág. 34.
(3) Artigo de Germano Silva, in Jornal de Notícias de 00.07.23
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