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TOMAR, UM SONHO TEMPLÁRIO
escreve
Armando Figueiredo *
Com Vossa licença, se for benveúdo, permitam-me, se não for
ainda demasiado ousado, que Vos sugira o seguinte:
- O que seria interessante, seria reunir os autores das
melhores CRÓNICAS DE VIAGEM, em Tomar num fim de semana.
De certo modo, e sem exacerbado exagero, seria transformar o
Hotel dos Templários num outro Paraíso de sonho, num sonho com
paraísos, a realização sonhada de todos os paraísos.
E, sem muita imaginação, mas quiçá exigindo alguma, meia dúzia
de casais até seria um número ideal para que a permuta da
descrição de sonhos realizados e de paraísos achados, fosse um
sonho lindo também concretizado.
Por ventura, esta sugestão será sem ventura nenhuma, por falta
de meios? Por ser demasiado cara? Que seria todavia cara, com
o sentido de querida! Os meios ou os fundos contrariam toda a
poesia e a prosa da utopia! De modo que, tendo tido hoje um
sonho lindo, remeto-o contudo aos deuses da negação.
Certamente...
Fim-de-semana quente, deslumbrante... O Sol brilhou com a
chama forte do Verão ainda por cumprir, passámos a minha
esposa e eu, pela Mealhada de Sexta-feira, dia 1, para
saborear o célebre leitão, e findo o repasto, lá nos
deslocámos pela antiga estrada para Tomar, apreciando a
paisagem que nesta estação do ano, é digna da caneta dos
poetas e dos artistas-prosadores. Como nos deslocávamos do
Norte para o Sul, em espiral, fomos descendo as Beiras,
confluindo no Ribatejo, e aí, fomos ao encontro do Hotel.
Pneumatizámos pela Ponte Velha e já no centro da Centro de
Cidade foi só rodear, ainda em espiral, o Parque; o Hotel dos
Templários mergulhava na sua profundeza, e no meio da
vegetação, frondosa, fresca e verde, entrelaçando o Rio Nabão,
numa posição de vassalagem, a seus pés.
Os três dias (duas noites) proporcionaram o apuramento do
bronze nas peles já tisnadas junto à piscina do Hotel, e a
revisitação do que já por duas vezes, há anos atrás, nos fora
dado observar e estudar. Fomos, assim, ao Convento de Cristo,
onde, nesta ocasião, um grupo guiado de italianos prestava a
sua investigação, auxiliados por um cicerone, ao Castelo, às
Igrejas, ao Moinho de El-Rei, à Sinagoga (Museu
Luso-Hebraico), e deambulámos pelas artérias da cidade, em
época de saldos.
Não podia deixar de fazer-se: a pé, metemos caminho à volta do
monte do Castelo e feita a espiral, observámos o pórtico da
Igreja interior, o Altar dos cavaleiros, os claustros, celas,
caves, indo confluir na frontaria da janela da Sala do
Capítulo, essa que resume a história nacional até D. Manuel.
Todos os símbolos recordam, na sua geomancia, a epopeia das
descobertas, a errância do povo português e a diáspora que lhe
seguiu, impulsionadas pela sabedoria guardada secretamente
pela Ordem dos Templários, tendo-se-lhe alterado o nome
aquando do receio da entrada da Inquisição em Portugal, para
Ordem de Cristo; ainda antes da institucionalização deste
Tribunal eclesiástico de má memória, reduzindo no fim da Idade
Medieval, a Religião ao maior fundamentalismo criado na
Civilização cristã até então. Gravado na pedra está estampada
a existência deste País de marinheiros, cruz de Cristo no
topo, coroas e globos, amarras, alcachofras, frutos, folhas de
vide, signos por decifrar (que alguns associam ao culto do
Paracleto). É a maior coroa de glória do Rei D. Manuel, o
monarca que impulsionou na Arte a amarração final, a súmula,
de todas as experiências, marítimos sustentos gastronómicos,
saberes de progressiva experiência feitos e outros nos
segredos do esoterismo.
O próprio D. Manuel teria sido duque de Beja e governador da
Ordem, e se outros anteriores foram os executores de ideias e
planos para que se cruzassem os mares desconhecidos, este
seria o seu fiel sintetizador na Arte escultórica; de tal modo
que a epopeia se perpetuou na pedra pela gerações seguintes,
sendo o nosso orgulho ainda nos tempos presentes.
Tomar continua uma cidade a visitar e a admirar. Todas as
vezes que se vai aí, encontra-se mais um pormenor geomântico
que nos seduz e nos chama ao regresso. Apesar de toda a sua
Indústria estar morta, excepção feita a uma Fábrica de Papel,
não obstante toda a sua Agricultura estar moribunda, meia
dúzia de apelos históricos continuam ainda como faróis
turísticos, a apelar e a acolher estrangeiros, ávidos de
conhecer melhor a nossa História, única no Mundo certamente,
um pequeno povo macrocéfalo que se agigantou nos mares do Sul,
esses que foram os mais temidos e tenebrosos na Época
Quinhentista.
Abastecidos dos doces da Região para ofertas a familiares,
retrocedemos na mesma espiral ao ponto de origem, sem antes
darmos uma volta pelo Vale de Santarém recordando as paisagens
deliciosas de Almeida Garrett, descritas nas Viagens da Minha
Terra.
Setembro de 2001
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