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UMA VIAGEM ATÉ AO INÍCIO DA ERA CRISTÃ (EM MILREU - ALGARVE)
Daniel
Cristal
Os meus caros amigos e bons companheiros para quem escrevo
estas crónicas de viagem, já se imaginaram no tempo de Adriano
(Públio Élio), imperador romano, durante o 1.º século da Era
Cristã, a viver em Milreu no Sudoeste da Ibéria (hoje Algarve),
ali, na linha divisória, ou seja, entre os limites das costas
do Sotavento e do Barlavento, a poucas léguas de Faro?
Pois claro, é aí onde se encontra o complexo arqueológico da
antiga "villa" romana com mais interesse em toda a província
algarvia. De notar que Adriano era de origem ibérica, órfão
aos dez anos, adoptado pelo imperador Trajano (seu primo), a
quem viria a suceder em 117 (d.C.). Adriano viajava frequentemente por todas as províncias do Império, incluindo
naturalmente a área algarvia. Conhecido jurisconsulto
(publicou o Edicto Perpétuo, verdadeiro código judiciário),
afamado pela sua erudição e pelo conhecimento filosófico,
aliando aos seus atributos dotes de poeta e artista, foi
também um grande construtor: Templo de Zeus em Atenas, Moles
Adriani (mausoléu imperial) e a cidade de Antinoópolis.
Viajamos no tempo, quase dois milénios para trás, à velocidade
da luz (são só alguns dias de repouso na Nave Espacial da
Relatividade, um Sol abrasador como esse de Albufeira ou de
Pedras d'el Rei, que torra a pele a esfolar da cor da
santola), e lá estaremos em Milreu, no tempo exacto em que
Adriano é recebido na Casa senhorial de Milreu.
Vinte séculos passados, o complexo habitacional de Milreu
lembra a arte precursora do antigo solar medieval (alterando o
Mausoléu pela Capela), que pelas Beiras se pode visitar e
observar, e ele lá está no meio duma paisagem bucólica,
rupestre, pontilhada de amendoeiras e odorosos laranjais.
Verdejante o espaço com majestáticas árvores frondosas
recortando o horizonte azul, vale a pena com a alma grande ou
pequena, visitá-lo para vivenciarmos o passado e "inspeccionar",
com olhos nostálgicos de deslumbramento, a obra dos
antepassados que por cá viveram e labutaram e enriqueceram as
regiões. Afinal morreram e ainda estão vivos, porque lhes
rendemos homenagem e os saudamos em reverência.
Sabem porque é que a História europeia, é um manancial de
acontecimentos que são o orgulho de cada europeu? É porque foi
terra apetecida de trespasse, de jogos do acaso bélico, de
poiso de povos que até da Ásia vinham e aqui se ramificavam.
Era terra de acolhimento ainda que forçado. Acolhimento e
miscegenação. Se num século pertencia a estes ou àqueles, no
século seguinte, pertenceria a essoutros ou aqueloutros. Uma
miscegenação de sangues, de culturas, de comunidades
diferentes. Aculturando-se, mas capazes também de se lançar em
conjunto em cruzadas pela fé em Jesus Cristo até à libertação
da Terra Santa. É riquíssima esta História, ela ferve-nos no
sangue, e é substrato do orgulho positivo e saudável que nos
alimenta.
Todavia,
vamos regressar a Milreu. Pressuposto é que seria um
importante entreposto agrícola, donde se escoavam os produtos
da região para a cidade de Óssonoba e outras partes do
Império, sendo que é um dos mais completos espólios
arqueológicos da passagem dos romanos pelo Sul de Portugal.
Pois é assim como vos digo: Não tinha ainda Jesus Cristo
nascido do parto milagroso de Virgem Maria em terras da Judeia,
e já os romanos andavam a cavalo ou a pé ou em charrete por
terras do Sudoeste da Ibéria, e, não só por estes lados, mas
também por todo o Ocidente da Europa e parte da Ásia Menor e
Médio-Oriente. A Ibéria era sua colónia, e nesta península
haveriam de deixar vestígios por todo o lado, perpetuando o
seu domínio ocasional, nas construções arquitectónicas de
pedra, na cultura transmitida, especialmente da Língua latina,
donde derivaram as línguas românicas (nas quais o português
radica) e no foro jurídico - o seu maior legado na forma da
mais elevada sabedoria dessa fase histórica, ainda hoje
estudado com interesse e reverência na ciência das Faculdade
de Direito da Europa.
Milreu faz inveja às terras da Grécia, que vivem do Turismo
cultural. É um ponto de visita imperdível para quem está no
Algarve. Um ponto obrigatório; é uma "villa" rústica, agora
depelada da terra que a cobria e ocultava; as ruínas estão bem
à mostra, dando uma ideia muito suficiente do que fora na sua
época mais esplendorosa.
Nela ainda se nota a excelente rede de abastecimento de água e
uma grande casa, na sua época passada, luxuosa, decorada com
mármores e mosaicos. Pode ainda admirar-se o sistema de
escoamento de águas, obra avançada de engenharia hidráulica.
Os tanques são amplos e magnificamente trabalhados. Não falta
o lagar de vastas proporções e os tanques para a pisa da uva.
O templo é a construção mais notória - o santuário da água -
em forma de galeria com uma «cella» central rodeada por
colunatas. A casa senhorial tem as salas pavimentadas e as
paredes decoradas com mosaicos de motivos geométricos ou
animais marinhos. Os peixes, as conchas e os desenhos
geométricos (os quais, estes são, a meu ver, precursores da
Arte andaluza) ornamentam a piscina e os pavimentos. Podemos
finalmente admirar vestígios bem reveladores dos edifícios,
reconstruir mentalmente a parte habitacional, o lugar das
termas, o santuário e os quartos.
À volta do empreendimento senhorial, os arqueólogos estenderam
os seus achados numa área superior a três hectares, dando a
ideia que o povoado adjacente por aí se estendia. A entrada
romana estende-se para o litoral e as colunatas de uma ponte
visionam verosimilmente ainda a travessia dum ribeiro no tempo
dos centuriões.
A estirpe do proprietário da Casa senhorial ficou no segredo
de Zeus, mas não é fácil adivinhar que terá sido um
comerciante rico ou agricultor abastado. E isso constata-se
pelo legado que nela se encontra: mosaicos de ouro e dois
grandes mausoléus, assim como bustos marmóreos de Agripina,
Adriano e Galieno, membros da família imperial romana.
Existem projectos para se proceder à reconstrução fiel de
paredes imitando a traça original com os mesmos materiais,
para que se perceba melhor a volumetria dos edifícios
originais da "villa" que certamente acomodava o imperador
Adriano, quando este era imperador dum vasto império que
visitava frequentemente, deslocando-se aos locais mais
extremos e mais recônditos.
Agosto de 2004 |