VIAGENS DE ARMANDO FIGUEIREDO (Daniel Cristal)

VIAGEM AO CENTRO DE PORTUGAL




I
A INCURSÃO
Ir, simplesmente ir, sem saber se se volta, ou quando, ir pelo prazer de ir, percorrer quilómetros a observar a paisagem, aqui e ali queimada e desolada pelo fogo destruidor, inquietante, muitas vezes criminoso, da floresta e dos pomares, de ano para ano mais deplorável, mais soturno, ir ao centro do rectângulo com 88.500 KM2 de superfície - Portugal continental.                              
Freixoeiro (Cardigos)
 

Pelo caminho, almoçar na Mealhada, o leitão já célebre na Gastronomia portuguesa, beber vinho da região da Bairrada e continuar para dormir numa casa simples de campo entre os pinheirais que se estendem pelas encostas dos montes com o cheiro a resina e a esteva. De eucaliptos também.

I
A INCURSÃO
Pelos vales, courelas e sopés das montanhas, os olivais estendem-se com azeitonas destinadas a apodrecer, porque o custo do trabalho não compensa a sua apanha. Beira-Baixa que perdeu a sua riqueza antiga (o olival) pelo preço sem compensa, Ribatejo que não foge à regra, e Alto-Alentejo, ambas, ali ao lado, com prova a terras desprezadas.
Mas, se a azeitona, foi, outrora fonte de receita, e já deixou de a ser, o pinho levou outro descaminho; queimado por mão criminosa, ou votado ao por falta de arroteio, a onda do mato que pelos pinhais prolifera, como pólvora pronta a arder à mínima faísca descuidada, ou azares do acaso vário: uma prisca, por exemplo, dum cigarro, uma brincadeira de criança descuidada e inocente, mas trágica; qualquer facto imprevidente. Ou o crime individual ou grupal de mentes torpes e doentes. Uma diversão pelo espectáculo dantesco? A piromania inconsciente! Loucuras do ser: vejam bem - o bombeiro gostava tanto de fogos florestais, que se não o visse ateados, ateava-os ele para os apagar depois!!! Contam-se alguns, poucos mas também, casos destes.
Até que chegámos ao centro geodésico. Uma pirâmide bem notória sobre serra da Melriça. Serra igual a muitas mais. À volta o espectáculo soberbo da paisagem verde. Cheia de manchas castanhas, na similitude do horizonte enegrecido, terreno onde o fogo proliferou, lambendo encostas e ladeiras.




Centro geodésico de Potugal - no Picoto da Serra da Melriça - Vila de Rei

 


II
O CENTRO
A descoberta do centro é sempre uma vitória na procura de algo que nos precipita no ponto, onde se descortina toda a (in)visibilidade. E depois da descoberta o percurso inverso só pode acontecer em espiral, para que tudo fique completo, rastreado, sem os enigmas atormentadores do desconhecimento.
Aqui uma vila, ali uma aldeia. Todas nascidas duma família que há milénios se instalou, procriou e fez gerar novos lares, quintais e hortas. Pomares à volta, florestas a perder de vista.
A terra por estes lados foi madrasta. O sonho levou os filhos dos filhos a procurar novas paragens, terras onde a vida se tornava fácil pela compensação laboral - a 'estranja'.
Ficava na partida a ânsia do regresso, a saudade transitória das cores, dos cheiros da terra verde florida, arborizada, dos prazeres da existência simples, muito simples, do bucolismo dos rios, da vegetação original, o regresso no fundo à origem, como caudal dos mitos de outrora. Foram e regressaram (uma boa parte - agora cada vez menos). Também abalaram para Lisboa, sobretudo, e outras cidades, capitais de província, polarizando os desejos de partida na procura de uma vida menos adversa e ingrata: com falta de quase tudo. Tinham vivido duma economia doméstica baseada numa agricultura de subsistência, pagos à jorna, e continuariam a viver assim, os menos afoitos e ousados - os resignados e renegados.
Com sacrifícios, muitos sacrifícios. Com a doença que atormentava pelos invernos frígidos, e dizimava velhos e novos, avós, pais, filhos e netos. Dentro da escola espartana, tolhiam-se movimentos nos dias de invernia, e sufocava-se, nos verões mais tórridos. Sempre no meio da sujeira virótica. No meio de raivas, invejas e indiferenças. Porém, prevalecendo, apesar de tudo, continuamente o amor ao rincão sedutor, vicioso, presos à família dos afectos, à fauna que era sua pertença, à flora que os sustentava parcamente. Deste lado e do outro uma flor, que abismava, e se colhia num acto de adoração para os dias de recepção de familiares e amigos.
Depois veio a França, a América, o Canadá, sempre o Brasil, mais tarde as colónias. A diáspora. A fuga à adversidade, à míngua, à insalubridade, à miséria ou à fome, ou talvez melhor: à fome do conhecimento, a vida feita humildade, à falta de dignidade.
E agora geração passada, velhos e gastos, regressam ao rincão natal. Voltam de vez, outros ainda com pezinho do outro lado, para uma visita fortuita, e constróem no seu lugar natalício a casa dos patrões, tipo «maison», o chalé suíço, a casa beirã, o local de permanência na reforma ou o local de férias. Quase velhos, quase gastos. No prazer de estar entre os memórias do tempo da inocência e da ingenuidade. Calcorreando as ladeiras do passado sacrifício estóico, hoje hedonista (pensam eles, todavia ainda frugal com muitos tiques conservados do estoicismo da poupança forçada). E sonham. E não largam o trabalho, cuidando das árvores, fazendo a horta que os presenteia com produtos saudáveis, ecológicos, frutos da terra outra vez virgem, renovadamente virgindada. Todos os dias rejuvenescida.
Gesta passada em mares tumultuosos, na descoberta épica de há cinco séculos, gente calejada no trabalho, pescadores beirões fustigados pela dureza da faina da pesca do bacalhau nas terras frígidas da Gronelândia, ou nos tumultuosos e perigosos mares da costa atlântica em barcos a remos inseguros e pequenos, suportando ventos impetuosos, tormentas, tumultos no contacto com outros povos menos receptivos, vencedor de todas as fúrias da natureza e dos povos hostis, o português pensaria sempre no regresso, com a esperança suportada pela imagem da Cruz de Cristo sobranceira, purgadora, encimada nos largos e praças, no topo dos morros, a igreja ao lado, mais ou menos distante, inalterada, salvo poucas excepções. Orgulho e cuidadoso tesouro religioso e mítico guardado e conservado pelos séculos.
O retornado ficou, depois da descolonização, e construiu e criou riqueza. O emigrante voltou e construiu também, e continuou a ser activo, o migrante regressou das cidades, construiu e tornou a vida mais alegre e saudável. Quem ficou, e nunca saiu da cepa torta, ficou igual ao que era, casa quase sempre em ruínas, aspecto miserando.

 



1 - Igreja do Freixoeiro, 2 - Casa de um retornado de Angola,
3 - Casa de um Emigrante (França) + duas casas de Migrantes, 4 - Quintinha de lazer e recreio (Migrante)

 


III
TERRAS DE TEMPLÁRIOS
A estrutura social no tempo de Gualdim Pais, mestre dos Templários, era feudal. O castelo de Almourol foi baluarte templário, reconstruído em 1171, e erguido por este Mestre, palco de «cortes de amor» e morada de imaginados gigantes e mouras. As Ordens religiosas eram as donas de vastos territórios, dadas pelos monarcas em outorga pelos feitos guerreiros, capacidade organizativa e administrativa, observância da moral da época e avanço científico. A poderosa ordem militar e religiosa do Templo, fundada em 1119, a seguir à Primeira Cruzada destinada à libertação da Terra Santa, havia sido aprovada pelo Papa no concílio de Troyes em 1128. Assim protegida pelo papado, que promulgou umas cinquenta bulas a seu favor, agraciada com terras pelos soberanos da Europa, recebeu inúmeras e significativas dádivas de peregrinos, e tornou-se extraordinária e escandalosamente rica. Tendo crescido desmesuradamente; tornou-se invejada e cobiçada pelo rei de França, resultando deste facto, ele ter confiscado toda a sua fortuna, e entregue os bens imóveis a outra Ordem (bula papal «Ad providam» - 1312), depois de serem acusados por corrupção, eclectismo, anti-cristianismo, sodomia ou culto de Baphomet e prática de ritos de iniciação de origem judaica. Em Portugal a Ordem dos Templários foi extinta em 1311, mas os monarcas impediram que os seus cavaleiros fossem perseguidos, e opuseram-se à alienação dos seus bens. Este rei fez regressar à Coroa parte dos donativos, e criou outra para a substituir, a Ordem de Cristo, e os membros da anterior nesta ingressaram. Membros das Ordens (Templários e Cristo) e até Grão-Mestres foram familiares dos reis. Aos Templários, foi sempre reconhecido o papel importante que tiveram no repovoamento do território, especialmente nas regiões de que foram donatários, participando activamente nas guerras da Reconquista. No centro de Portugal, a Ordem dominou desde Tomar à Guarda. E há coisas muito curiosas nesta zona geográfica: só recentemente se descobriu, e deu a conhecer a aldeia histórica, Belmonte, terra natural dum dos nossos mais célebres navegadores (distinguiu-se no achamento do Brasil), Pedro Álvares Cabral. Belmonte foi local de acolhimento de muitos cristãos-novos, alguns dos quais mantiveram escondido e secreto, o culto e as tradições judaicas. A sua sinagoga foi recentemente inaugurada (1996).
Mas o rei sabia que a Ordem fora sempre um pilar inquestionável e poderoso na edificação, manutenção e expansão de Portugal. E pressionado pelo Papa, o nosso rei D. Dinis obrigou a algumas alterações junto da Ordem. Esta, habilidosa, diplomática e artificialmente, extinguiu-se e mudou de nome, e tudo ficou na mesma. Seus prosélitos continuaram a ser os mesmos. Grão-Mestres, idem. Nasceria assim a Ordem de Cristo, que tanto valor e sucesso obteve durante os descobrimentos, e após. Interrogo-me sobre a razão por que Camões nunca se tenha referido ao merecimento da Ordem dos Templários; ele que conhecia bem a História de Portugal, tinha-a investigado, nela meditado, enaltecido e valorizado. Que enigma me surpreende em relação ao nosso genial épico! Que necessidade teve ele de elogiar os nossos reis e «barões assinalados» ocultando o substrato social, a verdadeira fortaleza de toda a acção expansiva do reino, motivo e consequência de toda a epopeia. Um escol de pensadores activos que desenvolviam políticas muito conscientes, apoiadas por ideologias e crenças eclécticas que tinham origem no Séc. XI, aquando da vinda dos cátaros do Cáucaso, perseguidos no Sul da Europa pela caça ao herege.
E já que falamos em D. Dinis, não deixo de lembrar suas virtudes, porque foi um dos melhores reis que honraram a História de Portugal; foi homem de Letras, promoveu a Cultura e o Ensino; investiu na arborização florestal: o pinhal de Leiria é o melhor exemplo; este pinhal não só defendeu as terras de cultivo das areias da costa, como também constituiu um armazém de pinheiros donde se extraiu a madeira para a armada que combateu no Norte de África, e serviu mais tarde as naus e caravelas que atingiram a Índia e as Américas; durante os séculos seguintes serviram ainda os transportes de mercadorias e passageiros que cruzaram os Oceanos.




Castelo de Almourol (Ribatejo)



IV
TERRAS DE LUÍS DE CAMÕES
Luís de Camões passou por Constância, muito perto do Castelo de Almourol, na confluência do Rio Zêzere com o Tejo. Encaixada entre estes dois rios, a vila forma quase uma península. Nessa confluência e numa dessas casas frente aos rios, é comum dizer-se que viveu Luís de Camões durante o exílio no Ribatejo, de 1547 a 1550. E aqui versejou a sua pretensão amorosa: uma senhora da corte real, que procurou namorar, sem muito êxito, diga-se em abono da verdade. A sua condição social não lhe permitia altos voos. Mas, D. Maria tinha por ele especial afeição. Por ela brigou e foi castigado.
Aí, o insigne Poeta afinava a sua veia lírica, bucólica e campesina. Sua paixão assinalava surdamente a infanta D. Maria, irmã do rei D. João III, ou Natércia - não se sabe ao certo, e o Poeta estava apaixonado por uma delas. Camões ocultou quanto pôde o nome do destinatário da sua paixão, que lhe causou a amargura de ser deportado para Ceuta, onde foi ferido irremediavelmente num olho na peleja pelo feito guerreiro.
Embora fidalgo, Camões estaria bastante abaixo do estatuto real da infanta D. Maria. Esta D. Maria teve uma vida amorosa muito atribulada, considerada a «sempre noiva», seria decepcionada permanente por casamentos desfeitos. E era bem capaz de ser a ela que o seu coração pretendia. Claro que a grandeza genial do Vate, justificaria um casamento desigual nessa questão de bens terrenos e desigualdade aparente quanto ao estatuto diferenciado, mas o que é certo é que Camões demorou a ser reconhecido; só no fim da vida teve jus a uma tensa real suficiente para cobrir as suas necessidades básicas. Por isso, o rei nessa ocasião não teria concordado com o enlace.
O seu bucolismo não oculta esses prados frondosos das margens do Tejo, e Constância é uma bela terra para inspiração de Poetas. Embora não seja daí natural, esta terra homenageia-o com um monumento e estátua de corpo inteiro, por ele fazer-lhe referência na sua obra.
«O prado as flores brancas e vermelhas
está suavemente apresentado;
as doces e solícitas abelhas,
com um brando sussurro vão voando;
as mansas e pacíficas ovelhas,
de comer esquecidas, inclinando
as cabeças estão ao som divino
que faz, passando, o Tejo cristalino.
O vento de entre as árvores respira,
fazendo companhia ao claro rio;
nas sombras, a ave gárrula suspira,
suas mágoas espalhando ao vento frio.»
Luís de Camões - Éclogas, «À morte de D. António de Noronha...»

 



Constância (Ribatejo)





(Todas os fotogramas são da autoria de Armando Figueiredo- 2004)

 

 

Powered by CódigoFonte.net

 

contador, formmail cgi, recursos de e-mail gratis para web site